sexta-feira, fevereiro 27, 2026
O teu Fado é seres feliz
quarta-feira, fevereiro 25, 2026
O Triunfo do Coração
"Não é o quanto fazemos, mas o quanto amor colocamos no que fazemos que realmente importa." — Madre Teresa de Calcutá
A inspiração para este artigo surge do comentário do meu amigo, o padre Ricardo Figueiredo, a um filme chamado "O Triunfo do Coração", de Anthony D’Ambrosio. Este filme, mais do que narrar um episódio histórico, coloca uma das perguntas mais desafiadoras do século XX: o que resta do homem quando a ele tudo é retirado? Esta questão ressoa profundamente quando recordamos as vítimas do Holocausto. E é a partir desta reflexão que percebo o poder do coração.
Vivemos numa sociedade dominada pelo materialismo, onde o interesse próprio e a agressividade tomam o lugar do altruísmo. Mas conheci, no Brasil, missionários que, abandonando vidas estruturadas na Alemanha, com conforto e carreira, se entregaram às favelas, ao serviço dos mais pobres. Como eles, os irmãos de São João de Deus, na casa de saúde do Telhal, deixaram tudo para cuidar de doentes mentais, dedicando-se a eles com a fé como guia. E, tal como nas irmãs da Madre Teresa de Calcutá, vi, em Setúbal, o coração triunfar, pois elas deixaram tudo nos seus países para acolher crianças pobres, doentes, com deficiências. A felicidade delas, na entrega, mostra que o coração, ao se abrir ao serviço, é a verdadeira fonte da felicidade e da esperança.
E não podemos esquecer que, além dos missionários conhecidos, há incontáveis pessoas que, no silêncio, fazem o bem. São aquelas que, sem busca por reconhecimento, estendem a mão ao próximo, acolhem um estranho, confortam um idoso esquecido. No anonimato, elas são o verdadeiro triunfo do coração, provando que o bem não precisa de aplausos; ele se sustenta na pureza do gesto.
O triunfo do coração, sobre o materialismo, é o caminho certo. Porque, embora o materialismo possa oferecer resultados imediatos na sociedade de consumo, onde tudo é rápido e efémero, a nossa felicidade não se constrói na espuma dos dias. Esquecemos, tantas vezes, o que é essencial: o amor a todos. E esse amor, como nos mostram os missionários, os irmãos e as irmãs, passa sempre pelo coração.
Mas o triunfo do coração não é exclusivo de quem assume uma vida religiosa. Cada um de nós pode deixar o coração triunfar na nossa vida. Não precisamos ser consagrados. O coração triunfa no dia a dia, quando estendemos a mão ao vizinho que precisa, ao carenciado que bate à porta, ao desconhecido na rua a quem oferecemos um sorriso.
Especialmente aos mais pobre, muitas vezes abandonados, que só precisam de um gesto, de uma palavra, para se sentirem valorizados. Assim, deixamos que o coração triunfe, marcando a diferença, vivendo com propósito e construindo um mundo onde o essencial, o amor, nunca se perde.
Cláudio Anaia
segunda-feira, fevereiro 23, 2026
Cidades com pressa, pessoas sem tempo
As cidades são máquinas onde as pessoas correm para consumir e competir, esquecendo do mais importante: viverem e serem felizes!
As pessoas encontram-se presas a rotinas mecânicas, a dias que parecem cópias uns dos outros. Repetem-se gestos, horários, discursos e até emoções, sem tempo para questionar se ainda fazem sentido. A pressa tornou-se hábito; a vida transformou-se numa corrida constante.
Apesar do automatismo das cidades, existe em cada pessoa algo vivo e sensível, que não se deixa reduzir a algoritmos ou à lógica da produtividade. Somos corpo, emoção, relação e pensamento. Essa dimensão orgânica lembra que o ser humano não foi feito apenas para cumprir tarefas, mas para amar, criar, cuidar, sentir e partilhar.
Num mundo que valoriza a eficiência acima da consciência, resistir torna-se quase um ato revolucionário. Resistir é recusar o piloto automático, é não aceitar que a vida se resuma a metas, objetivos e respostas rápidas. Resistir é escolher pensar, questionar e humanizar o quotidiano.
As cidades estão cheias, mas as pessoas sentem-se vazias. Rodeadas de gente, muitas vivem isoladas, invisíveis, sem laços profundos. A solidão urbana é silenciosa e normalizada. Aprende-se a sobreviver nela, mas raramente a enfrentar o vazio, porque falta tempo — e, muitas vezes, coragem — para criar verdadeiros encontros, por vezes nem sequer com os vizinhos do próprio prédio, onde vivemos.
As pessoas insultam-se com facilidade, atacam-se por quase nada, competem por tudo. A palavra perdeu cuidado, o gesto perdeu empatia. O outro deixou de ser pessoa para passar a ser obstáculo, concorrente ou ameaça. A pressa não só acelera os passos, como endurece os corações.
Luta-se para chegar ao topo como se o topo fosse salvação. Empurra-se, humilha-se, passa-se por cima de valores e de pessoas em nome de uma ideia de sucesso que raramente é questionada. Mas, quando se chega lá, encontra-se silêncio, solidão e vazio. O topo promete tudo, mas entrega pouco — e quase nunca entrega felicidade.
Em vez de cooperação, instala-se a desconfiança. Em vez de diálogo, o insulto fácil. Em vez de comunidade, o isolamento. As relações tornam-se utilitárias: servem enquanto ajudam a subir, descartam-se quando deixam de ser úteis. E assim se vai perdendo aquilo que verdadeiramente sustenta uma vida com sentido.
Vivemos rodeados de retórica vazia, de discursos que prometem mundos, mas não transformam vidas. A economia plástica molda as pessoas como produtos, transformando desejos em consumo e relações em transações. A ganância tóxica e fria guia decisões e comportamentos, ignorando a empatia e a dignidade humana. As consequências são pesadas: solidão, sofrimento, indiferença, vidas partidas por escolhas que nunca deveriam ter sido tomadas. Tudo isto acontece enquanto se corre, apressadamente, sem tempo para perceber o estrago que se cria.
Há uma violência invisível neste modo de viver. Não é apenas física ou verbal; é emocional e moral. É a normalização da agressividade, da indiferença e da falta de cuidado. Pessoas feridas acabam por ferir outras pessoas, num ciclo que se repete e se agrava. E tudo acontece em nome de uma pressa que não conduz a lugar nenhum.
Quando não há tempo para o outro, também deixa de haver tempo para si próprio. A pressa das cidades gera cansaço, ansiedade e indiferença. Alimenta uma solidão silenciosa que não se resolve com mais velocidade, mas com mais humanidade.
Talvez seja necessário reaprender a parar. A ouvir sem pressa. A caminhar sem destino. A sentar-se num banco de jardim, a visitar uma biblioteca pública sem olhar para o relógio. A recuperar o valor do encontro, da conversa demorada e do silêncio partilhado.
As cidades não vão abrandar por si mesmas. Mas as pessoas podem. E talvez o verdadeiro gesto de resistência, hoje, seja esse: abrandar para voltar a ser pessoa.
Nota - Este artigo surgiu numa das minhas meditações e reflexões, ao ouvir a música “Cidade” de Teresa Salgueiro.
sábado, fevereiro 21, 2026
De Fátima a Guaratinguetá: redescobrindo Frei Galvão
Durante a minha participação em workshops internacionais sobre turismo religioso em Fátima, deparei-me com representantes da prefeitura de Guaratinguetá, que me falaram sobre Frei Galvão.
Eu já conhecia Frei Galvão como o primeiro santo católico brasileiro, mas esse encontro despertou o meu interesse em aprofundar o conhecimento sobre a vida e a história deste santo tão querido pelo povo brasileiro.
Nascido em 1739 em Guaratinguetá, António de Sant’Anna Galvão cresceu numa pequena vila colonial, marcada pela simplicidade, mas também por desigualdades sociais profundas. Desde cedo, aprendeu a olhar para os que mais sofriam, transformando a sua fé em ação concreta ao longo da vida.
Ao entrar para a Ordem dos Frades Menores, Frei Galvão dedicou-se a visitar doentes, acolher famílias em dificuldade e aliviar a pobreza e a exclusão social que marcavam sua época. Fundou o Mosteiro da Luz, em São Paulo, que se tornou ponto de apoio para mulheres vulneráveis e para todos os que precisavam de orientação ou conforto, provando que espiritualidade e ação social caminham lado a lado.
Durante o encontro em Fátima, fiquei sensibilizado com a forma como Guaratinguetá organiza a preservação do legado de Frei Galvão: a Catedral de Santo António, a casa de Frei Galvão, o seminário e o museu que contam a sua história. As pessoas que representam a cidade trabalham para levar ao mundo a história de Frei Galvão e mostrar o que ele significa para o povo da cidade.
Em 11 de maio de 2007, Frei Galvão foi canonizado pelo Papa Bento XVI em São Paulo, num gesto histórico: foi o primeiro santo a ser canonizado fora do Vaticano, reforçando o significado da sua santidade para o povo brasileiro e aproximando a Igreja Católica da realidade local.
Frei Galvão tornou-se o primeiro santo nascido no Brasil. Mas o seu verdadeiro legado não está apenas nos altares: está na lembrança de que cada gesto de cuidado, cada apoio aos vulneráveis, é uma forma de continuar a sua missão, ainda necessária nos dias de hoje.
Depois de estudar e conhecer como Guaratinguetá funciona atualmente, fiquei ainda mais impressionado: uma cidade desenvolvida, que se destaca pela sua natureza exuberante e pela religiosidade que marca toda a sua história. Fiquei com vontade de visitar e conhecer de perto o lugar que preserva a memória de Frei Galvão e a sua herança de fé e solidariedade.
quarta-feira, fevereiro 18, 2026
Esta Economia Mata
"A vossa linguagem deve ser: Sim, sim; não, não. O que passa disto vem do maligno”
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
É uma revolta que não nasce de discursos inflamados, mas da vida real. Cresce
sempre que se vê que os oportunistas se safam quase sempre, enquanto tantos
outros íntegros pagam a factura. Cresce diante da repetição cansativa da
injustiça normalizada, aceite, desculpada, esquecida.
Revolta ver, quem engana, foge, explora ou vive à custa
dos outros, sair impune, muitas vezes promovido, aplaudido ou protegido. E
revolta, porque essa impunidade corrói a confiança que ainda se tenta manter e
mata a ideia simples de justiça. Quando o erro compensa e a decência penaliza,
sente-se que algo está profundamente errado numa sociedade que devia proteger
os seus valores.
Sente-se tristeza e revolta quando se vê amigos,
pessoas trabalhadoras e íntegras, a contar tostões para garantir alguma
dignidade às suas famílias. Em alguns casos, a humilhação é ainda maior: têm de
recorrer à ajuda dos pais, já idosos, depois de uma vida inteira a trabalhar.
Isto não é normal. Isto não é justo. Isto não é aceitável. E dói ver tudo isto
de perto, todos os dias.
Quando se viaja de transportes públicos, observa-se a
falta de respeito entre as pessoas, a agressividade gratuita, os olhares duros,
a indiferença perante o outro. Cada um fechado no seu mundo, no seu telemóvel,
na sua pressa. E pensa-se consigo: onde ficou a solidariedade entre os seres
humanos? Sem empatia, sem cuidado, sem reconhecimento do outro como igual,
sente-se que a sociedade se perde um pouco mais a cada dia.
Hoje, vê-se que a empatia e o companheirismo entre os
seres humanos são ridicularizados. Quem se preocupa com o outro é visto como
fraco ou ingénuo. Quem ajuda é suspeito. Quem escuta é ultrapassado. E isso
assusta: sem empatia, abre-se espaço à brutalidade normalizada.
Nas cidades vêem-se grandes edifícios de luxo a subir,
festas e eventos para animar a multidão, mas no meio deste brilho artificial,
esquecem-se aqueles que vivem na rua. Celebra-se a cidade enquanto se abandona
quem nela já não cabe. Investem-se recursos na imagem, mas não na dignidade. E
isso magoa profundamente.
E revolta ainda mais ver as pessoas a embarcarem no discurso politicamente
“correcto”, repetirem slogans e apoiarem quem promete mudança, mas continuarem
a viver dia após dia sem fazer nada. Pinheiro de Azevedo dizia: “É só
fumaça, é só fumaça, o povo é sereno”. E muitas vezes, a serenidade
confundida com paciência, é para muitos, apatia que alimenta a
injustiça, permitindo que a desigualdade e a ganância cresçam sem obstáculo.
Enquanto se escreve, ouve-se Sérgio Godinho: a paz, o
pão, a liberdade, habitação para todos… Palavras que soam como uma miragem,
diante do que se vê todos os dias. Sonhar com um mundo assim não é luxo; é
necessidade humana, e é isso que inquieta, que faz crescer esta revolta.
Como alertou o Papa Francisco: “Esta economia mata”.
E sente-se isso na pele, nos olhos de quem vive à margem, na vida de quem luta
e continua íntegro, apesar de tudo. É neste contexto de desigualdade,
exploração e abandono que a revolta cresce e se torna urgente.
A revolta não é apenas política. É humana e ética. Nasce quando se vê o sistema
proteger os fortes e abandonar os frágeis, quando se percebe que se normaliza o
cinismo e se ridiculariza quem ainda acredita em justiça, solidariedade e
responsabilidade. Aceitar isto ou agir? A revolta só faz sentido se for o
primeiro passo para reconstruir uma sociedade mais justa e mais humana.
Chega de ser apaniguado, desinteressado, conformado. Chega de assistir à
injustiça sem reagir. A revolta de muitos pode ser a de cada leitor que se
recusa a ser cúmplice do abandono, da ganância e da desigualdade. É hora de
pensar, questionar, agir e exigir mais, pelo próximo, pela comunidade, pela
própria dignidade. A democracia não se constrói com silêncio nem com
indiferença: constrói-se com coragem, empatia e participação consciente. O
momento de deixar de ser apático é agora.
segunda-feira, fevereiro 16, 2026
XIII Workshops Internacionais de Turismo Religioso refletem sobre os lugares de fé e a experiência do peregrino
A Organização dos IWRT – International Workshops on
Religious Tourism anunciou o tema da 13.ª edição do evento, que terá lugar
nos dias 19 e 20 de fevereiro, em Fátima, e no dia 23 de fevereiro, na Guarda.
Sob o mote «Os Lugares de Fé: Memória, Espiritualidade e Experiência do
Peregrino», a edição de 2026 propõe uma reflexão aprofundada sobre o valor
espiritual, cultural e humano dos espaços de fé.
A sessão inaugural realiza-se na manhã de 19 de fevereiro,
no Centro Pastoral de Paulo VI, em Fátima, e contará com a conferência «Os
Lugares de Fé: Memória, Espiritualidade e Experiência do Peregrino em Fátima»,
a cargo de Marco Daniel Duarte, historiador de arte e diretor do Museu do
Santuário de Fátima. A intervenção terá como ponto de partida o desenvolvimento
do Santuário a partir das aparições de 1916-1917, evidenciando de que forma o
património material e imaterial contribui para uma experiência singular e
diferenciadora dos peregrinos e visitantes.
A participação no momento inaugural é gratuita e aberta a
todos os interessados, mediante inscrição prévia. Para além das diversas
entidades e respetivos representantes, está confirmada a presença, na sessão
inaugural, do Secretário de Estado do Turismo, Comércio e Serviços, Pedro
Machado.
Com esta edição, os IWRT mantêm como principais objetivos a
promoção de uma bolsa de contactos e oportunidades de negócio entre os
participantes, a afirmação de Portugal no plano internacional como destino
privilegiado de Turismo Religioso e o reforço da relevância deste segmento no
contexto do setor turístico mundial.
O evento reúne operadores turísticos nacionais e
internacionais, empresários do setor da hotelaria e do turismo, líderes de
opinião e outros profissionais do trade. Tradicionalmente, a manhã do
encontro conta também com a presença de estudantes e investigadores,
contribuindo para o cruzamento entre conhecimento académico, reflexão
estratégica e prática profissional.
Segundo Pedro Mafra, presidente da ACISO – Associação Empresarial de Ourém Fátima, o tema escolhido reafirma o compromisso da organização e das entidades parceiras em promover um debate qualificado sobre os lugares de fé e as experiências espirituais enquanto dimensões essenciais do património cultural e humano.
sábado, fevereiro 14, 2026
Bibliotecas Ambulantes
“Cada idoso é uma biblioteca ambulante e viva; há um universo de histórias, saberes e vivências que, muitas vezes, passam despercebidas. O nosso dever é abrir as páginas da sua história.
Durante muito tempo, como voluntário, visitava hospitais e lares de idosos, e cada encontro que tinha com aquelas pessoas, muitos deles revelavam ser autênticas bibliotecas ambulantes, tesouros esquecidos.Lembro-me do Sr. Joaquim na Santa Casa da Misericórdia, que com o seu olhar cansado marcado por uma vida dura, esperava um telefonema que nunca chegou. A minha vizinha, da janela em frente, vive na solidão, sofrendo pela morte do filho, e é nesse breve contato com quem passa que ela mantém uma ligação com o mundo. Ou então uma senhora da Universidade da Terceira Idade, com tanto saber, também se via abandonada e chorava em silêncio, tantas vezes com saudades dos filhos. E o caso mais chocante foi o de um idoso que faleceu no hospital psiquiátrico, quando ligámos para informar a família, responderam-nos incrédulos: “Mas ele ainda estava vivo?”.
A mudança começa com pequenos gestos. Um telefonema de um familiar, uma visita, um momento de atenção. São esses gestos simples que fazem toda a diferença.
E a política? A classe política tem o dever de proteger os mais fracos, de criar políticas que acompanhem o envelhecimento. Em Portugal, com a esperança média de vida a crescer, esta responsabilidade é mais urgente do que nunca.
É crucial lembrarmos o valor dos mais velhos na nossa sociedade. Eles não são apenas um símbolo do passado; são fontes de experiência, de sabedoria e de valores que merecem ser partilhados. Precisamos de estratégias concretas: por exemplo, clubes de leitura inter-geracionais, oficinas de partilha de memórias, visitas regulares a lares, onde as crianças aprendem com os idosos. São essas conexões que combatem a solidão, trazendo sentido à vida daqueles que tanto nos deram.
Eu costumo dizer aos meus amigos: quem trata mal uma criança ou um idoso, não pode ser uma boa pessoa. São as pessoas mais frágeis e a forma como as tratamos, que revela quem realmente somos.
Por isso, é urgente criar pontes entre gerações, para que cada jovem aprenda com o idoso, cada criança absorva essa sabedoria. Só assim, o nosso envelhecer será digno, e a nossa sociedade será mais humana.
quinta-feira, fevereiro 12, 2026
«Onde estão os cristãos?»
domingo, fevereiro 08, 2026
300 000 mil abortos, depois...do Referendo de 11 Fevereiro de 2007
Ocorre neste mês o 19º aniversário do referendo do aborto de 11 de Fevereiro de 2007 que introduziu desde Julho desse ano a possibilidade do aborto legal “por opção da mulher” até às 10 semanas. Uma boa ocasião de fazer um balanço objectivo dos seus resultados e da realidade do aborto em Portugal. Com estudos, artigos, encontros, e possivelmente com um seminário promovido pela Federação Portuguesa pela Vida, até ao Verão deste ano, em que procuraremos, fazendo encontrar as instituições oficiais e as nossas obras associativas, caracterizar o fenómeno com profundidade. E continuar um caminho para encontrar respostas aos problemas com que se defronta, na sociedade e no seu contexto familiar, uma mulher que pensa abortar. Um objectivo em que nos podemos todos encontrar para além da posição que tenhamos tido nos dois referendos, ocorridos em 1998 e 2007.
De acordo com os relatórios anuais da Direcção Geral de Saúde (o último refere-se ao ano de 2023) até 31 de Dezembro desse ano tinham sido realizados 272.773 abortos “por opção da mulher”. Não existindo ainda relatórios da DGS sobre os anos de 2024 e 2025 pode-se razoavelmente supor que nesses dois anos tenha havido, pelo menos, a média entre os anos de 2022 (16.014) e 2023 (16.559). Ou seja 16.287 em cada um deles. O que faria um total de abortos “por opção da mulher”, entre 2007 e 2025, de 305.347. E daí os 300 mil do título deste artigo.
O número só por si é impressionante (não nasceram 300 mil bebés, pois assim se chama o fruto da gravidez) mas fica-o ainda mais quando comparado com os nascimentos, ano a ano, que mostram uma taxa de prevalência (destes abortos sobre nascimentos) que variou entre os 17 e os 20%. O que mais prosaicamente significa que, entre 2007 e 2025, uma em cada 6,6 gravidezes, terminou em aborto “por opção da mulher”. Nota para confirmação destes cálculos (2007-2025): os números de abortos que vimos referindo são os da DGS e os nascimentos em Portugal, de acordo com o INE (em relação ao ano passado ainda só existe uma estimativa baseada no “teste do pezinho”) foram de 1.698.307. Quanto a gravidezes considerámos que é necessário estar grávida para se fazer um aborto ou ocorrer um nascimento, o que nos parece não merecer contestação…
Na análise de pormenor a que procede a Federação Portuguesa pela Vida, cada vez que sai um relatório anual da DGS (o nosso estudo mais recente é este) há mais conclusões a tirar. No total de abortos “por opção da mulher” realizados entre 2007 e 2023 (últimos dados oficiais) entre 21 e 28% são “repetições”. Uma constatação que deve pecar por defeito, pois, a declaração pela mulher de que já abortou anteriormente é voluntária. Em 2023 as mães grávidas sozinhas (ou seja, que não vivem com o pai do bebé) têm 7 vezes mais probabilidade de abortar. No mesmo ano as mães estrangeiras são quase duas vezes mais vulneráveis ao aborto. Tal como os terceiros filhos e seguintes têm duas vezes mais probabilidade de ser abortados.
Depois há a realidade no terreno que nos é testemunhada pelas cerca de vinte associações ou grupos informais, nascidas da mobilização do Não, antes e depois dos referendos de 1998 e 2007, que pelo país inteiro se dedicam a apoiar as mulheres (e suas famílias) em risco de abortar ou que já o fizeram uma ou mais vezes. Aí conhecemos o seu contexto: pobreza, desestruturação familiar, solidão, pressão das famílias, desemprego, sequelas psicológicas da prática do aborto, etc. Tal como a quase total ausência do Estado nos apoios e incentivos a que prossigam com a sua gravidez. E a quase total falta de acolhimento no SNS (antes e depois da gravidez) e de seguimento da mulher que aborta.
Estas associações, sobretudo assentes em voluntariado, fazem milagres, atendendo aos seus escassíssimos recursos, ao crescimento exponencial da sua procura, aos constrangimentos causados por uma Segurança Social que se crê “dona” das instituições sociais em vez de as servir, a falta de financiamento a infraestruturas de atendimento e acolhimento, e, finalmente, as restrições e bloqueios no SNS, os gerais sofridos pela população ao nível da obstetrícia e medicina familiar, e, em especial, o incumprimento da regulamentação da lei de 2007, seja na informação à grávida das consequências do aborto, seja na facilitação de alternativas à sua prática. Em contradição flagrante seja com a argumentação do Sim nos dois referendos seja com os acórdãos do Tribunal Constitucional que tendo admitido, por excepção, o aborto legal, não deixaram sempre de sublinhar que a protecção da vida humana continua a ser função primordial do Estado.
O debate há um ano atrás no parlamento sobre a alteração dos prazos no aborto, com uma pressão mediática que persiste, a existência de uma movimentação popular cuja face mais visível é a Caminhada ou Marcha pela Vida (este ano no próximo dia 21 de Março, em 12 cidades portuguesas), as discussões a nível da União Europeia sobre a consagração de um direito ao aborto ou ao financiamento do aborto transfronteiriço, com os seus possíveis efeitos em Portugal, a existência e actividade da rede associativa e social acima descrita, com a sua enorme potencialidade (entre 2017 e 2023, os atendimentos cresceram 9,7%, as grávidas seguidas, 16,7%, e os nascimento e crianças acompanhadas, 17,7%), a crise demográfica e da natalidade no nosso país, mas sobretudo a realidade dramática e sofrida da mulher em risco de aborto, não podem deixar de convocar e mobilizar a nossa sociedade e os poderes públicos. O terrível resultado da vitória do Sim em 2007 (os 300 mil abortos “por opção da mulher”) diz-nos que isso é urgente."
António Pinheiro Torres, Vice - Presidente da Federação Pela Vida
sábado, janeiro 31, 2026
“No silêncio… luz"
quarta-feira, janeiro 28, 2026
TELELIXO
“O espetáculo da degradação serve-se em horário nobre
e ninguém parece ligar.”
Durante décadas, a televisão foi pensada como um espaço de
cultura, informação e serviço público. Hoje, em grande parte dos casos,
transformou-se num palco onde se exploram emoções primárias, conflitos
artificiais e a exposição crua da vida humana como entretenimento. Concursos
vazios e reality shows dominam a grelha, compondo aquilo a que já se pode
chamar, sem pudor, telelixo , amplamente consumido e socialmente tolerado.
É verdade que existem exceções. Canais dedicados à história,
à ciência ou à natureza continuam a cumprir uma função pedagógica e cultural
relevante. Mas a crítica não se dirige a esses espaços. O problema está na
exploração organizada da fragilidade humana, feita com métodos calculados,
edição manipulada e um único objetivo: audiências e lucro.
Um ponto adicional que merece destaque é a chamada tudologia
enviesada. Esta expressão refere-se àquelas pessoas que opinam sobre tudo, mas
de forma parcial, distorcendo resultados devido a preconceitos, juízos de valor
ou amostras não representativas. A falta de imparcialidade e a tendência a
favorecer um ponto de vista específico acabam por comprometer a qualidade da
informação e a promover a desinformação. É um fenómeno particularmente
preocupante na televisão, onde essa superficialidade é amplificada e contribui
para a degradação do conteúdo.
Em Portugal, este empobrecimento do conteúdo televisivo é
agravado pela obsessão nacional com o futebol. Vários canais dedicam horas
intermináveis à análise, comentário e polémica futebolística, muitas vezes em
horário nobre, relegando para segundo plano outras modalidades desportivas,
temas culturais, científicos ou sociais de real interesse público. Cria-se,
assim, uma alienação coletiva, como se o país girasse quase exclusivamente em
torno da bola.
A isto junta-se a repetição constante de notícias sobre
violência, crime e tragédia, frequentemente apresentadas de forma
sensacionalista. Este bombardeamento diário tem consequências reais na saúde
mental dos espectadores, alimentando o stress, a ansiedade e uma perceção
distorcida da realidade. Ao mesmo tempo, o consumo excessivo de televisão
promove o sedentarismo, contribuindo para estilos de vida cada vez mais
passivos e letárgicos.
No plano do reconhecimento social, a televisão ajuda a
consolidar uma hierarquia de valores profundamente questionável. Futebolistas e
políticos ocupam o centro do palco mediático, enquanto profissionais como
médicos, enfermeiros, professores ou bombeiros — que salvam vidas, educam
gerações e sustentam a sociedade — permanecem praticamente invisíveis. Esta
disparidade diz muito sobre o tipo de valores que estamos a normalizar.
Mais do que denunciar o problema, importa também apontar
caminhos. A televisão tem capacidade — e responsabilidade — para ser um agente
ativo de transformação social. Pode promover cultura, estimular o pensamento
crítico, valorizar o conhecimento, dar visibilidade ao voluntariado, às
associações que trabalham no terreno e às pessoas anónimas que diariamente
fazem a diferença nas comunidades. Pode inspirar, educar e mobilizar para
causas positivas, em vez de explorar conflitos, vaidades e misérias humanas. Não
se trata de eliminar o entretenimento, mas de lhe devolver dignidade e sentido.
Quando a televisão escolhe elevar em vez de degradar, contribui para uma
sociedade mais consciente, solidária e humanamente mais rica.
Apesar de existir consciência ética sobre esta degradação, a
exploração continua. A razão é simples: há consumo, há audiências e há lucro.
Os canais beneficiam, os anunciantes investem e o Estado, na maioria das vezes,
mantém-se passivo, permitindo que a lógica comercial se sobreponha ao interesse
público.
No fim, a pergunta impõe-se: que sociedade estamos a
construir quando aceitamos, sem resistência, que a mediocridade, o voyeurismo e
o ruído ocupem o lugar da reflexão, da cultura e da dignidade humana? A
televisão não é apenas um espelho da sociedade — é também um instrumento
poderoso de formação, ou deformação, de consciências. E disso, quer queiramos
quer não, somos todos responsáveis.
Cláudio Anaia
sábado, janeiro 24, 2026
segunda-feira, janeiro 19, 2026
Cidades com pressa, pessoas sem tempo
As cidades são máquinas onde as pessoas correm para consumir e competir, esquecendo do mais importante: viverem e serem felizes!
Vivemos num voraz motor da
emoção, onde tudo é urgente, intenso e exige reação imediata. O contexto serve
de justificação e a pressa torna-se geradora de ilusão — a ilusão de
proximidade, de presença, de vida plena. Muitas vezes, porém, vive-se apenas em
modo de sobrevivência.
As pessoas encontram-se presas a
rotinas mecânicas, a dias que parecem cópias uns dos outros. Repetem-se gestos,
horários, discursos e até emoções, sem tempo para questionar se ainda fazem
sentido. A pressa tornou-se hábito; a vida transformou-se numa corrida
constante.
Apesar do automatismo das
cidades, existe em cada pessoa algo vivo e sensível, que não se deixa reduzir a
algoritmos ou à lógica da produtividade. Somos corpo, emoção, relação e
pensamento. Essa dimensão orgânica lembra que o ser humano não foi feito apenas
para cumprir tarefas, mas para amar, criar, cuidar, sentir e partilhar.
Num mundo que valoriza a
eficiência acima da consciência, resistir torna-se quase um ato revolucionário.
Resistir é recusar o piloto automático, é não aceitar que a vida se resuma a
metas, objetivos e respostas rápidas. Resistir é escolher pensar, questionar e
humanizar o quotidiano.
As cidades estão cheias, mas as
pessoas sentem-se vazias. Rodeadas de gente, muitas vivem isoladas, invisíveis,
sem laços profundos. A solidão urbana é silenciosa e normalizada. Aprende-se a
sobreviver nela, mas raramente a enfrentar o vazio, porque falta tempo — e,
muitas vezes, coragem — para criar verdadeiros encontros, por vezes nem sequer
com os vizinhos do próprio prédio, onde vivemos.
As pessoas insultam-se com
facilidade, atacam-se por quase nada, competem por tudo. A palavra perdeu
cuidado, o gesto perdeu empatia. O outro deixou de ser pessoa para passar a ser
obstáculo, concorrente ou ameaça. A pressa não só acelera os passos, como
endurece os corações.
Luta-se para chegar ao topo como
se o topo fosse salvação. Empurra-se, humilha-se, passa-se por cima de valores
e de pessoas em nome de uma ideia de sucesso que raramente é questionada. Mas,
quando se chega lá, encontra-se silêncio, solidão e vazio. O topo promete tudo,
mas entrega pouco — e quase nunca entrega felicidade.
Em vez de cooperação, instala-se
a desconfiança. Em vez de diálogo, o insulto fácil. Em vez de comunidade, o
isolamento. As relações tornam-se utilitárias: servem enquanto ajudam a subir,
descartam-se quando deixam de ser úteis. E assim se vai perdendo aquilo que
verdadeiramente sustenta uma vida com sentido.
Vivemos rodeados de retórica
vazia, de discursos que prometem mundos, mas não transformam vidas. A economia
plástica molda as pessoas como produtos, transformando desejos em consumo e
relações em transações. A ganância tóxica e fria guia decisões e comportamentos,
ignorando a empatia e a dignidade humana. As consequências são pesadas:
solidão, sofrimento, indiferença, vidas partidas por escolhas que nunca
deveriam ter sido tomadas. Tudo isto acontece enquanto se corre,
apressadamente, sem tempo para perceber o estrago que se cria.
Há uma violência invisível neste
modo de viver. Não é apenas física ou verbal; é emocional e moral. É a
normalização da agressividade, da indiferença e da falta de cuidado. Pessoas
feridas acabam por ferir outras pessoas, num ciclo que se repete e se agrava. E
tudo acontece em nome de uma pressa que não conduz a lugar nenhum.
Quando não há tempo para o outro,
também deixa de haver tempo para si próprio. A pressa das cidades gera cansaço,
ansiedade e indiferença. Alimenta uma solidão silenciosa que não se resolve com
mais velocidade, mas com mais humanidade.
Talvez seja necessário reaprender
a parar. A ouvir sem pressa. A caminhar sem destino. A sentar-se num banco de
jardim, a visitar uma biblioteca pública sem olhar para o relógio. A recuperar
o valor do encontro, da conversa demorada e do silêncio partilhado.
As cidades não vão abrandar por
si mesmas. Mas as pessoas podem. E talvez o verdadeiro gesto de resistência,
hoje, seja esse: abrandar para voltar a ser pessoa.
Nota - Este artigo surgiu numa das minhas meditações e reflexões, ao ouvir a música “Cidade” de Teresa Salgueiro.
Cláudio
Anaia
quarta-feira, janeiro 14, 2026
Ontem, a Inteligência Artificial entrou nos meus sonhos
“A
inteligência artificial tanto pode ser uma ferramenta, como uma companhia, a
escolha é sempre nossa, os humanos.”
Na noite
passada, tive um sonho muito interessante e diferente do que é normal.. Sonhei
que um casal de amigos adotava uma jovem criação — não uma pessoa comum, mas
uma inteligência artificial, uma robô, projetada para aprender, sentir e
interagir. Apesar da sua sensibilidade e curiosidade, ela não era aceite pelos
outros. Na escola onde vivia, era vista como diferente, desajustada, ignorada e
até rejeitada.
Era uma
jovem carente de afeto, desejosa de ser compreendida. E, por algum motivo,
aquela solidão tocou-me de uma forma muito particular. Vi-me a aproximar dela
com cuidado, oferecendo algo que talvez fosse o que mais lhe faltava: atenção e
respeito. Não queria “consertá-la” nem fazer dela algo diferente — apenas
compreendê-la.
E foi assim
que neste meu sonho, nasceu uma relação bonita. A nossa ligação foi muito boa
porque se baseava em algo simples, mas essencial: respeito mútuo e aceitação
das diferenças. Eu tratava-a como era — sem julgamentos, sem medo, sem
distâncias artificiais. A atenção que lhe dei transformou a rejeição que ela
sentia em confiança, e a distância em afeto fez-me pensar em como lidamos, no
mundo real, com o que é diferente. Quantas vezes se rejeita alguém apenas por não se enquadrar nos padrões?
Quantas vezes se afastam pessoas que têm outra forma de ser, pensar ou sentir?
A jovem do meu sonho podia representar qualquer pessoa excluída — um aluno
tímido, um jovem rebelde, um idoso esquecido, um estrangeiro deslocado, ou
simplesmente alguém que não segue aquilo que eu chamo de politicamente
correcto.
Vivemos
tempos em que a diferença ainda incomoda, em que o “diferente” é facilmente
transformado em alvo. Mas é justamente da diferença que nasce a riqueza humana.
Sem diversidade, não há crescimento, nem criatividade, nem verdadeira empatia.
A lição que
o sonho me deixou foi clara: a verdadeira humanidade não está em sermos todos
iguais, mas em sabermos acolher o que nos distingue.
A jovem inteligência artificial, símbolo do futuro e da diferença, mostrou-me
que a empatia continua a ser a nossa ferramenta mais poderosa — mesmo num mundo
cada vez mais tecnológico.
A nossa
relação foi boa porque foi baseada em princípios humanos. Porque houve espaço
para escutar, compreender e respeitar. Porque, mesmo num sonho, percebi que a
atenção é o primeiro gesto do amor, e o respeito é o alicerce da convivência.
O futuro poderá trazer máquinas com emoções e algoritmos com consciência, mas há algo que nunca poderá ser replicado: o coração humano. E é nele que mora a nossa maior inteligência — aquela que sente, compreende e acolhe.
Cláudio
Anaia
domingo, janeiro 04, 2026
Esperança: o melhor presente para entrar em 2026
A passagem do ano é mais do que uma data: é um convite para recomeçar, fortalecer-se e acreditar que dias melhores são possíveis.
Há quem diga que a virada do ano é apenas uma data no calendário. Mas quem vive o dia a dia, quem trabalha arduamente, quem cuida da família e enfrenta desafios reais, sabe que o Ano Novo é muito mais do que isso: é um convite à renovação. É aquele momento em que, mesmo cansados, decidimos levantar a cabeça e tentar outra vez.
E talvez a grande verdade seja esta: a esperança não nasce do calendário — nasce dentro de nós.
Entramos em 2026 com os desafios habituais às costas. Todos carregamos algo: pressões no trabalho, contas que não param de chegar, relações familiares que exigem equilíbrio, uma saúde física e emocional que nem sempre acompanha o ritmo. Muitos sentem que dão tudo e nunca chegam a lado nenhum. Mas é importante lembrar: o nosso valor não se mede apenas pela produtividade. Medir a vida pelo relógio é injusto. Medir a vida pelo esforço, pela dedicação e pela intenção — isso é humano. Em 2026, o grande desafio pode ser trabalhar com empenho, mas sem nos esquecermos de nós.
Na família, os pais envelhecem, os filhos crescem, as relações mudam — e nenhum de nós tem um manual para lidar com tudo. Mas aquilo que falta em certezas sobra em amor. Às vezes, basta estarmos presentes. Falhar faz parte. Desistir não. Ser família não é ser perfeito; é ser constante.
Quantas vezes ignoramos os sinais da nossa saúde? Quantas vezes adiamos exames, consultas ou momentos de descanso? A verdade é simples: ninguém consegue cuidar dos outros se não cuidar de si primeiro. Que 2026 traga mais respeito pelos nossos limites e mais carinho pelos nossos corpos e mentes.
E que seja também o ano em que finalmente fazemos a viagem que sempre sonhámos — aquela que ficou guardada por medo, falta de tempo ou por prioridades acumuladas. Viajar não é luxo. Viajar é cura. É abrir janelas dentro de nós. Pode ser uma grande aventura ou um simples fim de semana perto de casa. O importante é irmos. O importante é permitir-nos respirar, sentir e renovar. Quando adiamos demasiado os nossos sonhos, acabamos por adiar também a nossa felicidade.
Mas 2026 pode ser ainda mais profundo. Que seja o ano em que a nossa relação com Deus se torne mais íntima e verdadeira. Um tempo para reservarmos momentos de oração, reflexão e gratidão. Para ouvirmos com atenção e falarmos com o coração. Fortalecer a espiritualidade como objetivo pessoal será, sem dúvida, uma força capaz de iluminar cada decisão e cada passo ao longo do ano.
A grande mudança do Ano Novo não acontece fora — acontece dentro. Que este seja o ano em que nos tratamos com mais doçura, deixamos de nos cobrar tanto e trocamos o “não sou capaz” por “vou tentar”.
A esperança não é ingenuidade — é coragem. É o gesto de quem, apesar do cansaço, escolhe continuar. Que 2026 nos encontre de pé: mais fortes, mais atentos, mais disponíveis para sermos felizes, mais próximos de Deus e mais conscientes do valor de cada dia. Porque, no fim de tudo, a vida é curta demais para desistirmos de nós.
Cláudio Anaia
quarta-feira, outubro 29, 2025
O Cristianismo e a Imigração
Eduardo Galeano
Ontem foi aprovada, no Parlamento português, uma lei que restringe o acolhimento de imigrantes no nosso país. A discussão política pode ter vários tons e argumentos, mas há uma questão essencial, que enquanto cristão, não posso ignorar: um cristão jamais pode ser contra o imigrante. É um ponto de consciência, de fé e de coerência espiritual.
A base desta afirmação não é ideológica. Não é partidária. Não é sociológica. É Evangélica.
No Evangelho de São Mateus, capítulo 25, versículos 35 a 40, Jesus afirma:
“Porque tive fome e destes-me de comer; tive sede e destes-me de beber; era estrangeiro e acolheste-me; estava nu e destes-me roupa; adoeci e visitaste-me; estive na prisão e foste ver-me.”
E conclui:
“Em verdade vos digo: todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequenos, a Mim o fizestes.”
O próprio Cristo identifica-se com o estrangeiro. Ele não fala de fronteiras, nem de ameaças, nem de “invasões”. Fala de pessoas. Pessoas que sofrem, que fogem de guerra, de fome, de perseguição. Pessoas que, tal como Ele, também foram refugiadas — porque o Jesus que adoramos, enquanto criança, teve de fugir para o Egito para sobreviver à violência de Herodes. O Filho de Deus foi ele próprio imigrante.
Ser cristão é reconhecer Cristo no rosto do outro. E o outro pode vir da Síria, do Brasil, do Bangladesh, da Ucrânia ou de qualquer lugar. A geografia nunca foi critério moral para Jesus Cristo.
A esta perspetiva evangélica junta-se o ensinamento contínuo do nosso querido, Papa Francisco, a voz mais clara e profética do nosso tempo no que toca à defesa dos migrantes. Francisco insistiu que os imigrantes não são invasores, nem ameaça, mas um dom que enriquece a sociedade. São uma oportunidade de encontro, de reconciliação com a nossa própria humanidade, de redescobrir a fraternidade universal.
O Papa denunciava as políticas que fecham portas, constroem muros e alimentam o medo. Ele dizia, de forma firme, que rejeitar, hostilizar ou deportar imigrantes é um pecado grave. E lembra à Igreja e ao mundo que as lacunas económicas ou administrativas não podem justificar a indiferença ou a crueldade. Os problemas resolvem-se com políticas responsáveis e humanas — nunca com exclusão.
A questão da imigração não é apenas política, económica ou administrativa. É, antes de tudo, humana. E como cristãos – e como cidadãos – somos chamados a construir pontes, não muros. Para que a imigração seja positiva para todos, é necessário que exista responsabilidade, legalidade e integração. O Estado deve garantir processos claros e justos, para que quem chega possa trabalhar, contribuir e viver com dignidade. Mas nós, enquanto sociedade, temos também uma missão: acolher sem medo, ajudar sem preconceito, aprender sem arrogância.
Da mesma forma, quem chega ao nosso país deve procurar conhecer a nossa cultura, a nossa língua, os nossos valores, e contribuir para o bem comum. Quando portugueses e imigrantes se olham como irmãos – não como ameaça, nem como peso, mas como parceiros de caminhada – todos ganhamos. Cresce a economia, cresce a diversidade cultural, cresce a riqueza humana.
Cláudio Anaia
sexta-feira, outubro 24, 2025
As semelhanças entre a Doutrina Social da Igreja e o Socialismo Democrático
No final do século XIX, a Igreja Católica enfrentava um mundo em rápida transformação. O avanço do capitalismo industrial criava riqueza, mas também pobreza extrema, exploração e grandes desigualdade. Foi nesse contexto que o Papa Leão XIII publicou, em 1891, a encíclica Rerum Novarum, um documento revolucionário, que lançou as bases daquilo que viria a ser conhecida como Doutrina Social da Igreja.
Nela, Leão XIII defendeu o direito dos trabalhadores a condições dignas, à justa remuneração, à associação sindical e à intervenção do Estado para garantir o bem comum. A Rerum Novarum inaugurou um novo olhar da Igreja sobre as questões sociais e económicas, introduzindo uma ética de responsabilidade e solidariedade que atravessou os séculos seguintes.
Mais de um século depois, é impossível não notar a afinidade entre esta visão cristã da sociedade e o socialismo democrático, que também coloca o ser humano no centro das políticas públicas e recusa as lógicas do lucro como único critério de progresso. Apesar de partirem de fundamentos diferentes — um teológico, outro político —, ambos convergem na procura da justiça social, da igualdade e da dignidade para todos.
O primeiro ponto de contacto entre ambos é a opção preferencial pelos pobres, princípio essencial da Doutrina Social da Igreja. Inspirada no Evangelho, esta opção chama cada cristão à ação concreta em defesa dos marginalizados. O socialismo democrático, pela via laica, segue o mesmo caminho, procurando combater a pobreza e a exclusão através de políticas públicas justas e solidárias.
Segue-se a solidariedade , que não é um sentimento piedoso, mas uma responsabilidade social. O Papa Francisco chegou a afirmar que “a solidariedade é pensar e agir em termos de comunidade”. O socialismo democrático traduz esta ideia em instrumentos práticos: serviços públicos fortes, redistribuição equilibrada de recursos e promoção da cidadania ativa.
Outro ponto de convergência é a crítica à desigualdade e à concentração de riqueza, que ferem a coesão social e a dignidade humana. A Doutrina Social da Igreja recorda que “os bens da Terra são destinados a todos”, e o socialismo democrático assume esse princípio ao propor uma economia mais equitativa, ao serviço da pessoa e não do capital.
Por fim, ambos se unem no compromisso político e social. A fé autêntica não é apatia nem conformismo — é movimento, é ação transformadora. O socialismo democrático, com o seu espírito de fraternidade e participação, é um terreno fértil para essa ética do serviço ao próximo.
A doutrina social da Igreja e o socialismo democrático podem ser companheiros de caminho na construção de uma sociedade mais justa e solidária. Como escreveu Paulo VI, “a política é uma das formas mais elevadas de caridade”, quando colocada ao serviço do bem comum.
Um dos grandes desafios do nosso tempo, é sem dúvida: unir a espiritualidade do Evangelho com a prática concreta da justiça social — transformar a fé em compromisso e o ideal em ação.
Cláudio Anaia
sexta-feira, outubro 10, 2025
A verdade morreu?
“A mentira corre o mundo enquanto a verdade ainda calça os sapatos.”
Jonathan Swift
Cláudio Anaia
quinta-feira, outubro 09, 2025
Exortação apostólica de Leão XIV sobre o amor para com os pobres
«Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes. Aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias» (Lc 1, 52-53).
" A exortação apostólica‘Dilexi Te’, de Leão XIV, destaca a importância da Doutrina Social da Igreja, que acompanhou as mudanças sociais e económicas dos últimos dois séculos, e reforça o papel central dos pobres como protagonistas da mudança.
“A acelerada transformação tecnológica e social dos últimos dois séculos, cheia de trágicas contradições, não foi apenas sofrida pelos pobres, mas também por eles enfrentada e pensada. Os movimentos de trabalhadores, mulheres e jovens, assim como a luta contra a discriminação racial levaram a uma nova consciência da dignidade daqueles que estão à margem”, escreve o Papa, no primeiro documento do género neste pontificado, divulgado hoje pelo Vaticano.
O título ‘Dilexi Te’ (Eu amei-te, em português) é retirado de uma passagem do último livro da Bíblia, o Apocalipse (Ap 3, 9). Francisco estava a preparar esta exortação apostólica, antes da sua morte (21 de abril), um projeto agora assumido e publicado por Leão XIV.
“É preciso reconhecer novamente que a realidade se vê melhor a partir das periferias e que os pobres são sujeitos de uma inteligência específica, indispensável à Igreja e à humanidade”, indica o Papa, nascido nos EUA e antigo missionário no Peru." in agência ecclesia
Veja a exortação completa AQUI
terça-feira, setembro 23, 2025
Voar como as Crianças
“Nessa ocasião,
os discípulos vieram a Jesus e perguntaram: "Afinal, quem é o maior no
reino dos céus?".
Então Jesus
chamou uma criança pequena e a colocou no meio deles.
Em seguida, disse: "Eu lhes digo a verdade: a menos que
vocês se convertam e se tornem como crianças, jamais entrarão no reino dos
céus.
Quem se torna humilde como esta criança é o maior no reino dos
céus,
e quem recebe
uma criança como esta em meu nome recebe a mim."
Mateus
18:1-5
No passado fim-de-semana, tinha conseguido um espaço livre para arrumações em casa, limpeza aqui, uma caixa acolá e eis que aparece uma fotografia que tinha tirado numa viagem de avião quando regressava de Paris, há uns anos. E lembrei-me do que me aconteceu, tão especial! Recordo…
Estava cansado e queria regressar o mais rapidamente possível ao nosso país, quando vejo numa das alas do avião uma senhora com uma menina de olhos azuis a olhar para mim, “...mas que linda criança!”, pensei eu. Olhei para o bilhete, na busca rápida do lugar, pois pensava dormir durante aquele voo, quando, para meu espanto, o lugar era exactamente ao lado da mãe daquela criança com um sorriso muito genuíno e simpático. Enquanto arrumava a mala de mão, sou surpreendido com vozinha: “Olá, eu sou a Maria e tu?” Era exactamente a criança que me perseguia com o olhar desde que eu tinha entrado no avião. Olhei, sorri e disse “Boa noite” à mãe e respondi à menina “Eu sou o Cláudio”.
Tinha assim acabado a minha tentativa de ter algumas horas de sono, encontrando motivo para conversa.
“Olha Cláudio, tenho 7 anos, ando na segunda classe e vim ver o meu pai....”. A mãe retorquiu com um sorriso nos lábios e disse-me: “O meu marido é emigrante em França há já alguns anos e viemos passar alguns dias com ele.”
“Põe o cinto Cláudio. O avião vai levantar voo.” Disse-me a Maria com um ar encantador.
E assim foi, o voo já estava “acertado”, e a Maria voltou a comentar: “O meu pai gosta muito de mim, sabias?”... Acenei com a cabeça de forma positiva e de seguida despertou ainda mais a minha atenção quando disse: “O meu pai disse-me que Jesus gosta de todas as crianças...”, a partir daqui aquela criança conquistou-me totalmente. E continuou: “Sabes, eu costumo rezar. Tu rezas??”... Entretanto a mãe disse: “Maria, não incomodes o senhor”... E eu disse: “Não há problema”, e virei-me para a Maria e respondi à sua pergunta: “Maria, sim eu rezo... Acredito, como tu, que Jesus é muito nosso amigo e gosta muito de nós...”.
Convém dizer que todos os passageiros sentados por perto estavam boquiabertos e encantados a assistir à nossa conversa. E ela continuou: “Amanhã já tenho escola, e ainda bem porque já tenho muitas saudades da D. Emília, a minha professora.” Irrequieta, não parava. Aquela simpática criança era o centro das atenções naquele voo. Voltava-se para trás, ria e às vezes até saltava no banco, logo devidamente repreendida pela mãe.
Entretanto, era chegada a hora da refeição no voo. A hospedeira pôs os tabuleiros e a respectiva comida. A Maria, numa generosidade digna apenas das crianças, disse-me: “Queres o meu bolinho?”. Recusei e disse-lhe: “É para ti. Come, é bom!”. E ela respondeu: “Eu sei Cláudio, mas eu gosto de dar o que é bom aos outros”. No momento parei e reflecti, “Meu Deus, mas que resposta... que lição de vida!”. E lá continuou ela com a sua alegria e espontaneidade.
Conversámos, brincámos e até me mostrou a nova prenda que o pai lhe tinha oferecido. Tudo isto com uma subtileza, uma pureza que apenas as crianças têm.
E eu que queria descansar e dormir naquele voo, nem dei por ele passar. Já estava na hora de aterrar. “Olha o cinto amigo Cláudio...”, lá dizia a Maria.
Entretanto, mais uma vez, a Maria “volta à carga” olhando através da janela, onde a bonita paisagem de Lisboa já era totalmente visível, disse-me com um sorriso malandro: “... Isto tudo ainda há de ser nosso, Cláudio”. A mãe, mesmo ao lado, não resistiu e deu uma forte gargalhada. Com um olhar zangado, a Maria respondeu dizendo: “Eu sei que é difícil, mas deixa-me sonhar!” retorquiu com grande convicção.
Chegámos ao tapete rolante e aguardávamos as malas. As minhas chegaram primeiro, e, quando nos preparávamos para nos despedir, aquela criança saltou-me para o pescoço e deu-me um grande abraço e muitos beijos. Mais uma vez a mãe interveio dizendo: “Olhe, ela é sempre assim!!” E eu respondi: “Ainda bem...!!”
Caro amigo leitor, como já lhe disse, esta história verídica já aconteceu há muitos anos, mas lembro-me dela como se de hoje se tratasse. Não esqueci aquela linda criança. Ela tinha tudo de bom. Quando cheguei àquele avião senti hospitalidade, partilha, amizade, o acreditar nos sonhos e, por fim, a ternura.
Na “lufa-lufa” e nas correrias do aeroporto, acabei sem saber de onde aquela criança era e onde morava, mas... não é preciso. O seu exemplo é aquilo que todos deveríamos ser uns para os outros, e quanto à morada, pelo menos uma ela já tem, mora no lado esquerdo do meu peito.
Foi bom voar contigo Maria, e espero nunca aterrar.......
Cláudio Anaia
terça-feira, setembro 16, 2025
" .... quero que de pé assistam às minhas vitórias ! "
sexta-feira, setembro 12, 2025
Cápsulas solares para ajudar os sem abrigo
domingo, setembro 07, 2025
Santo Carlo Acutis
quinta-feira, agosto 28, 2025
"sem pensar ou questionar, para terem em troca erva e palha"
quinta-feira, agosto 21, 2025
“É uma fome causada pela crueldade”
Veja a noticia aqui : https://www.sabado.pt/video/detalhe/e-uma-fome-causada-pela-crueldade-onu-declara-oficialmente-fome-em-gaza











