«Um bom católico deve meter-se na
política.» - Papa Francisco
A afirmação
do Papa Francisco, «um bom católico deve meter-se na política», encerra uma
profundidade muito maior do que a sua aparente simplicidade deixa antever. Não
é um comentário circunstancial nem uma tomada de posição partidária. É uma
interpelação moral, espiritual e cívica dirigida a uma sociedade onde a
indiferença, o individualismo e o esvaziamento ético parecem ganhar terreno.
Vivemos um
tempo paradoxal. Nunca existiram tantos instrumentos de participação, tanta
liberdade de expressão e tanto acesso à informação. Ainda assim, cresce o
afastamento dos cidadãos da vida pública. Muitos desistiram da política porque
deixaram de acreditar nela. Outros refugiaram-se numa espiritualidade
intimista, desligada da realidade concreta do sofrimento humano. E não faltam
aqueles que, absorvidos pelas exigências da sobrevivência quotidiana, perderam
a disponibilidade para pensar o bem comum. É neste contexto que as palavras de
Francisco adquirem um alcance quase profético.
Quando fala
de política, o Papa não se refere apenas a partidos, eleições ou maiorias
parlamentares. Fala da polis, da cidade enquanto espaço de convivência,
responsabilidade e destino partilhado. Fala da forma como escolhemos distribuir
oportunidades, proteger os mais vulneráveis, promover a justiça e preservar a
dignidade de cada pessoa.
Esta visão
está perfeitamente alinhada com o cristianismo. Desde a sua origem, o Evangelho
nunca foi apenas uma proposta de salvação individual. Cristo falou dos pobres,
dos excluídos, da fome, da hipocrisia, da exploração e do abuso do poder. A fé
cristã nasceu inseparável da preocupação pelo outro e da inquietação perante o
sofrimento humano.
É dessa
herança que nasce a doutrina social da Igreja. A fé não se esgota na oração nem
na profissão de princípios abstratos. Exige compromisso com a realidade. Não
basta proclamar valores; é necessário traduzi-los em escolhas concretas. A
neutralidade perante a injustiça dificilmente pode ser apresentada como uma
virtude cristã.
Ao afirmar
que um bom católico deve envolver-se na política, Francisco confronta uma das
grandes tentações do nosso tempo: a da fuga. A fuga para a crítica permanente,
para o conforto das redes sociais, para uma religiosidade sem consequências
públicas ou para o cinismo resignado de quem repete que «são todos iguais».
O problema é
que a política não fica suspensa quando os cidadãos de consciência se afastam.
Os espaços deixados vazios acabam inevitavelmente ocupados por quem vê o poder
como um fim em si mesmo. É assim que prosperam os extremismos, os populismos e
todas as formas de radicalização que corroem as democracias.
Importa,
porém, evitar um equívoco. Francisco não propõe uma política confessional nem
pretende transformar a religião num instrumento de poder. A História demonstra,
com demasiada frequência, os perigos da fusão entre as autoridades política e
religiosa. O que o Papa defende é outra coisa: uma política inspirada por
princípios éticos, aberta ao diálogo e orientada pelo serviço.
Uma fé
amadurecida não fabrica inimigos nem absolutiza ideologias. Humaniza a
política. Recorda que por detrás das estatísticas existem pessoas; que uma
economia sem ética produz exclusão; que o progresso sem humanidade gera
solidão; e que o desenvolvimento material, quando perde de vista a dimensão
espiritual, acaba por empobrecer a própria condição humana.
Talvez um
dos maiores dramas da modernidade tenha sido a pretensão de substituir a
transcendência por ideologias apresentadas como soluções definitivas para todos
os problemas. Muitas dessas promessas acabaram por gerar violência, opressão e
desumanização. Como observou James H. Billington, diversos movimentos
revolucionários assumiram características quase religiosas, exigindo uma adesão
absoluta aos seus projetos e tratando a dissidência como heresia.
Francisco
surge, neste contexto, como uma voz de resistência a essa lógica. Recorda que a
política deve permanecer consciente dos seus limites. Não é um espaço de
redenção absoluta, mas de serviço imperfeito, diálogo permanente e procura
paciente do bem comum.
As suas
palavras são também um apelo à coragem. Participar na vida pública exige
disponibilidade para ouvir, capacidade de aceitar a diferença e sentido de
responsabilidade. Exige construir onde tantos preferem comentar, criar pontes
onde outros levantam muros e servir quando é mais fácil procurar protagonismo.
Nenhuma
democracia sobrevive apenas com espectadores.
No fundo, é
essa a verdadeira mensagem de Francisco. A fé não pode reduzir-se a um refúgio
privado perante o caos do mundo. Deve traduzir-se numa presença transformadora
na sociedade, não através da imposição ou da arrogância moral, mas por meio da
compaixão, da justiça e da responsabilidade.
Porque uma
das formas mais exigentes, e mais autênticas, de amar o próximo é trabalhar
para que a sociedade se torne um lugar mais justo e humano para todos, sem excepção.
Cláudio Anaia













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