Quando me pediram para refletir sobre as razões para ser católico, a
primeira questão que coloquei a mim próprio foi esta: antes de ser
católico, sou verdadeiramente cristão?
Esta distinção é
importante, porque muitas vezes se confunde a Igreja enquanto Corpo de
Cristo com a sua dimensão institucional e hierárquica. Ao longo da
história, alguns dos seus membros não souberam transmitir fielmente os
ensinamentos de Cristo, deixando-se influenciar por interesses políticos
ou pessoais. Essa realidade contribuiu para o afastamento de muitos.
Vivemos
numa sociedade marcada pela pressa e pelo imediatismo. Muitas vezes,
rezamos apenas quando precisamos, de forma automática e pouco
consciente. Falhamos frequentemente em viver a nossa fé no quotidiano:
ignoramos quem precisa de ajuda ao nosso lado, enquanto gastamos em
coisas supérfluas aquilo que poderia aliviar o sofrimento de outros.
Estes comportamentos ajudam a explicar por que tantos deixaram de
acreditar na Igreja.
Recordo um episódio marcante da minha vida
profissional. Um doente, figura relevante do país, disse-me: “Não sou
católico, sou humanista.” Respondi-lhe que, se era verdadeiramente
humanista, então, de algum modo, era também crente em Deus, pois Deus
manifesta-se no homem. Ele hesitou. Percebi que associava a Igreja a
figuras históricas e contextos políticos com os quais discordava,
confundindo a instituição com a essência da fé.
Expliquei-lhe que
a verdadeira Igreja é a humanidade, da qual todos fazemos parte, tendo
Cristo como cabeça. Falei-lhe também do papel do Papa, sublinhando que a
fé não implica obediência cega, mas uma adesão consciente e racional,
porque a fé não se opõe à razão, antes a ilumina.
No final,
disse-me: “Se me tivessem falado assim, talvez a minha relação com Deus
tivesse sido diferente.” Respondi-lhe que Deus não é apenas dos crentes,
mas de todos.
É com profundo respeito por todas as confissões
cristãs, e reconhecendo as fragilidades da Igreja Católica, que agradeço
a Deus ser cristão católico. Agradeço pelos tesouros espirituais que
nela encontrei.
A Igreja nasceu quando Pedro reconhece em Jesus o
Filho de Deus, e Cristo diz lhe: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra
edificarei a minha Igreja.” Durante os primeiros mil anos, “católico”
era praticamente sinónimo de “cristão”. Só mais tarde, com o Grande
Cisma, se deu a separação entre Igreja Ocidental/Católica e
Oriental/Ortodoxa.
“Católico” significa “universal”. Esta
universalidade implica uma visão aberta da humanidade, sem espaço para
racismo ou exclusão. Ser católico é, para mim, acreditar que cada pessoa
pode contribuir para a transformação da sociedade, tornando-a mais
justa e mais humana.
A preocupação com os mais pobres e
vulneráveis está no centro desta visão. Deus deseja que todos alcancem a
plenitude como seres humanos. Ser católico é estar ao lado dos que
lutam por justiça, contra as desigualdades e discriminações, promovendo
condições para que cada pessoa se realize plenamente.
Ser
católico é também reconhecer Deus no mundo, nas mais diferentes áreas
como no trabalho, na cultura, na ciência, nas relações humanas, na
família e até nos momentos de lazer. Não há separação entre vida
espiritual e vida quotidiana, as duas são caminho de encontro com
Deus.
Na minha vida, particularmente como médico, encontro um dos
maiores mistérios. Nasci numa pequena aldeia, sem condições básicas, e
desde muito cedo senti o desejo de ser médico. Nunca encontrei uma
explicação puramente racional para isso. Vejo-o como uma graça, um dom
gratuito que deu sentido à minha vida.
Ser médico, para mim,
nunca foi apenas uma profissão técnica. Sempre senti que não podia
separar a doença da pessoa que sofre. Muitas vezes, os problemas mais
profundos dos doentes não são físicos, mas da alma. A verdadeira
medicina exige proximidade, empatia e humanidade.
Dou graças a
Deus por poder servir através da minha profissão. Mesmo quando me
afasto, sei que Ele permanece presente, pronto a acolher-me. Essa é,
para mim, a maior prova de amor.
Também eu experimentei a
fragilidade da doença. Passei por situações graves que me fizeram
compreender melhor quem sofre. Essas experiências reforçaram a minha
convicção de que o doente procura mais do que competência técnica.
Procura confiança, compreensão e esperança.
Quantas vezes, ao
ajudar alguém, sinto que não sou eu o autor da cura, mas apenas
instrumento. Como costumo dizer aos meus doentes: “Foi Deus que me deu
os meios para o tratar.”
A fé ensina-me que o livre-arbítrio é
sagrado. Deus não se impõe, Ele convida. Cabe a cada um escolher o
caminho do bem e do amor.
Na Páscoa, celebramos o mistério
central da fé cristã: o amor levado até ao extremo. Cristo entrega-se
livremente, revelando que o amor vence a morte, que a luz supera as
trevas.
Vivemos tempos difíceis, não apenas economicamente, mas
sobretudo ao nível dos valores. A ética e a moral parecem, por vezes,
desvalorizadas. Mas o cristão não pode aceitar que o fim justifique
todos os meios. É chamado a testemunhar que o bem deve prevalecer.
Ser
católico não é um conjunto de práticas isoladas. É uma forma de viver e
amar sem condições. É dizer “sim” , a Deus, ao outro, e à vida.
E essa continua a ser, para mim, a mais bela razão para ser católico..
Fernando Ramalho
Médico; Professor da Faculdade de Medicina de Lisboa