sábado, agosto 06, 2022

Os Padres

 

Os Padres são, hoje em dia, uma espécie de “bombos da festa”!
Tudo e toda a gente “malha” nos Padres, em letra maiúscula de propósito.

Começa, (sei lá bem onde começa?), pelos leigos, pelos paroquianos, passa pelos ditos católicos que não “vão” à Igreja e lhes dá jeito os problemas de alguns padres para não irem, (aqui com letra minúscula de propósito), pelos políticos, (é tão bom que falem dos outros e esqueçam a “porcaria” que fazem todos os dias), pelos ditos jornalistas, que de jornalistas nada têm, mas apenas de fazedores de suspeitas, de difamações, de manipulações, passa até pelos que cometem os terríveis pecados que alguns, poucos, padres cometem, porque assim ninguém olha para eles, enfim, é um nunca acabar de gente a criticar, a julgar, a condenar, os Padres, normalmente na praça pública.

Infelizmente, até na própria Igreja, mesmo aos mais altos níveis, os Padres são objecto e razão para permanentes críticas e admoestações, porque são clericalistas, porque são conservadores, porque são progressistas, porque isto, porque aquilo, esquecendo-se essa mesma hierarquia de, pelo menos de vez em quando, os presentear com o reconhecimento do trabalho feito em tanto lugar e tantas vezes em momentos e lugares tão difíceis.

Quem vive com os Padres no seu dia a dia, quem com eles colabora no intuito de servir a Deus, percebe como tantas vezes é injusta a maneira e o modo como os Padres são tratados.

Quem cuida de saber se estão cansados, se celebram mais Missas do que deviam, intercalando com funerais, baptizados, casamentos e “outras coisas mais”?

Se confessam e nada dizem, não valeu a pena a confissão. Se confessam e tentam dar conselhos e ajudar a encontrar caminho, são uns “chatos”, quando não uns convencidos que pensam saber mais do que os “confessados”!

Se nas homílias tentam dar testemunho das suas vidas servindo-se das Leituras e do Evangelho, é porque estão a falar de si próprios, se falam apenas da Palavra e A tentam explicar com mais profundidade, têm a mania que são “teólogos”, se sorriem, riem e estão bem dispostos, é porque não percebem a “dignidade” do que estão a fazer, se estão de cara séria e chamam a atenção para os erros que todos praticamos, têm a mania que são melhores do que os outros.

A lista é interminável, mesmo sem fim, e aplica-se sempre aos Padres que acabam por pagar pelos erros dos outros, padres como eles também.

Então isso quer dizer que não se deve dar atenção e conhecer e punir os actos vergonhosos de alguns padres?
Claro que não!
Tudo isso deve ser apurado até ao fim e com toda a força da lei canónica e civil, doa a quem doer, mas que envolva também todos os outros sectores da sociedade onde tal acontece também.

As outros, filhos de Deus também, mas que nEle não acreditam, é prova mais do que acabada que Deus não existe, que a Igreja é uma “fantochada”, e que tudo isso devia acabar de imediato.
No entanto, não são capazes de tomar a mesma atitude, por exemplo, perante a política, pois sabendo que há políticos corruptos, reconhecem que há bastantes que o não são.

Aqueles que se dizem cristãos católicos e se afastam da Igreja por causa do pecado gravíssimo de alguns padres, (bem poucos no universo geral), ainda não perceberam que a Igreja não são os Padres, somos nós todos reunidos em nome de Deus.

Àqueles que se sentem envergonhados pelo comportamento inaceitável e pecaminoso de certos padres, obrigado, porque são Igreja e sofrem com a Igreja que são.

O texto não teria fim porque, infelizmente, é muito vasto o assunto e exige de nós cristãos católicos muita oração pelos Padres e pelos padres que prevaricam gravemente, bem como pelas suas vítimas.

Eu, pessoalmente, dou graças a Deus pelos Padres, orgulho-me de conhecer e ser amigo de muitos deles e agradeço-lhes do fundo do coração a sua entrega, mais ainda nestes momentos tão difíceis em que seria bem mais fácil “abandonar a barca”, e sobretudo o dom de trazerem Deus nos Sacramentos ao povo que O adora e nEle sempre confia e espera.

Amemos os nossos Padres, por eles pedindo sempre e pedindo ao nosso Papa Francisco e aos nossos Bispos que os acarinhem e reconheçam a sua dedicação profunda, não os criticando tantas vezes como se fossem eles os “culpados” de tudo o que não corre tão bem na Igreja.

Só Deus sabe o seu enorme sacrifício, a sua persistência, perante tantos e tão variados ataques e incompreensões com que as suas vidas são escrutinadas, a maior parte das vezes apenas para dizer mal e interpretar falsamente os seus gestos e atitudes.

O texto é cáustico, muito, eu sei, mas dói-me profundamente que a enorme maioria de Padres que deram e dão a sua vida por Cristo, estejam num frenesim de ataques que toma sempre a “nuvem por Juno”.

A vós Padres todos que, humanamente, resistis às tentações, que reconheceis as vossas fraquezas, mas vos mantendes firmes na fé, ajudando-nos a vivê-la em Igreja por Cristo, com Cristo e em Cristo, OBRIGADO!

Rezo por vós e dou graças a Deus por todos e cada um que permanece fiel ao seu sacerdócio, tudo e só para a maior glória de Deus.


Joaquim Mexia Alves

quinta-feira, julho 14, 2022

Não tenhais Medo!

 Recordar o Padre António Augusto Sobral


 

Faz hoje dia 14 de Julho de 2022 exatamente 14 anos que o meu querido padrinho Padre António Augusto Sobral partiu para o Pai.

Um homem que marcou a história da minha vida e de muitos barreirenses, que recordo muitas vezes com imensa saudade.

Na altura escrevi um texto para  o Jornal do Barreiro , que hoje partilho novamente em sua homenagem numa declaração pública de que a sua pessoa foi e sempre será uma  referencia para mim.

 

Não tenhais Medo!

Enquanto escrevo este texto sinto o meu coração apertado e a cabeça a andar á roda. Ainda custa a acreditar que o meu padrinho, o Padre Sobral, já não está entre nós.
Custa a acreditar que, se eu amanhã quiser ir até casa dele, ele já lá não estará, atrás da sua secretária para me ouvir, para me aconselhar e para me confortar quando a vida me pregar uma daquelas partidas inesperadas. Ou então que ele já não estará para sairmos no carro dele, para darmos um daqueles nossos passeios.
Volto a questionar, será que aquele que me ensinou a ser homem e a ser cristão já cá não está? Será um pesadelo que acabará assim que eu acordar?
Infelizmente, percebo que estou acordado e que acabo de perder um pai, um amigo e um companheiro, que me acompanhou quase toda a vida.

Sinto que agora vai ser muito mais difícil viver. Vai ser mais difícil porque me vai faltar aquele que me deu tantas vezes ajuda para caminhar…aquele que estava sempre disposto a confortar-me.
Começo a lembrar-me, como se de um filme se tratasse, as primeiras vezes que conversámos.
Eu era um garoto de 12 anos quando o abordei, ainda dentro da igreja:
- “ Quer ser meu padrinho?”
Ele aceitou de imediato. A partir daí foi uma relação de troca de sentimentos, de confidências e de muitas experiências.
Sempre me aconselhou qual o rumo a seguir para a minha felicidade, sempre baseado naquele que mais amamos: o nosso Jesus.
Fui catequista cerca de 15 anos e nas reuniões e nas homilias onde participei ele era implacável e directo, sendo impossível ficar-lhe indiferente.
Por tudo isso hoje costumo dizer que o cristão que sou e as convicções que tenho se devem a alguns dos seus ensinamentos.
Para os mais desfavorecidos e para os mais pobres este era de uma sensibilidade fora do comum e até sei de histórias (que não vou por aqui contar) que demonstram que este saiu prejudicado pessoalmente e ficou em dificuldades para estar ao serviço do próximo. E o que mais admiro é que fazia tanto pelos outros e sempre em silêncio, sem querer nada em troca ou para que outros vissem.
O meu padrinho assimilava o Evangelho e colocava-o em prática.
O meu padrinho foi um exemplo de testemunho de Jesus Vivo para mim.
Nas suas viagens trazia-me sempre uma lembrança.
Foi na adolescência uma juventude sempre presente, sempre disponível para ajudar.
Nem sempre tudo correu bem, é um facto, mas também não é menos verdade que depois de uma boa conversa tudo ficava para trás das costas e lá ganhava um abraço e um beijo.
Quando foi homenageado pelos Rotários, a organização informou-o de que poderia levar dois convidados, um deles fui eu…o que me deixou naquela altura muito feliz.
Transporto no meu coração tantas e tantas histórias que me ajudam a aliviar a sua falta…a sua ausência.
O meu padrinho era um bom rebelde, um irreverente e até na sua partida para o céu” partiu sem nos avisar, à sua maneira, sem permitir prepararmo-nos psicológica e emocionalmente para o vazio que iria provocar no íntimo da nossa existência, que tão bem soube orientar” como disse o Dr. Jorge Cardoso.
“ Não tenhais medo” ensinou-me ele e curiosamente foi sobre esta frase que o ouvi na última homilia há umas semanas atrás na missa.
Continuemos então a obra e a missão que ele soube, tão bem, pôr em prática na sua vida.
Até sempre padrinho, estarás para sempre no coração de todos aqueles que te amam.
 

Cláudio Anaia