"A vossa linguagem deve ser: Sim, sim; não, não. O que passa disto vem do maligno”
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
É uma revolta que não nasce de discursos inflamados, mas da vida real. Cresce
sempre que se vê que os oportunistas se safam quase sempre, enquanto tantos
outros íntegros pagam a factura. Cresce diante da repetição cansativa da
injustiça normalizada, aceite, desculpada, esquecida.
Revolta ver, quem engana, foge, explora ou vive à custa
dos outros, sair impune, muitas vezes promovido, aplaudido ou protegido. E
revolta, porque essa impunidade corrói a confiança que ainda se tenta manter e
mata a ideia simples de justiça. Quando o erro compensa e a decência penaliza,
sente-se que algo está profundamente errado numa sociedade que devia proteger
os seus valores.
Sente-se tristeza e revolta quando se vê amigos,
pessoas trabalhadoras e íntegras, a contar tostões para garantir alguma
dignidade às suas famílias. Em alguns casos, a humilhação é ainda maior: têm de
recorrer à ajuda dos pais, já idosos, depois de uma vida inteira a trabalhar.
Isto não é normal. Isto não é justo. Isto não é aceitável. E dói ver tudo isto
de perto, todos os dias.
Quando se viaja de transportes públicos, observa-se a
falta de respeito entre as pessoas, a agressividade gratuita, os olhares duros,
a indiferença perante o outro. Cada um fechado no seu mundo, no seu telemóvel,
na sua pressa. E pensa-se consigo: onde ficou a solidariedade entre os seres
humanos? Sem empatia, sem cuidado, sem reconhecimento do outro como igual,
sente-se que a sociedade se perde um pouco mais a cada dia.
Hoje, vê-se que a empatia e o companheirismo entre os
seres humanos são ridicularizados. Quem se preocupa com o outro é visto como
fraco ou ingénuo. Quem ajuda é suspeito. Quem escuta é ultrapassado. E isso
assusta: sem empatia, abre-se espaço à brutalidade normalizada.
Nas cidades vêem-se grandes edifícios de luxo a subir,
festas e eventos para animar a multidão, mas no meio deste brilho artificial,
esquecem-se aqueles que vivem na rua. Celebra-se a cidade enquanto se abandona
quem nela já não cabe. Investem-se recursos na imagem, mas não na dignidade. E
isso magoa profundamente.
E revolta ainda mais ver as pessoas a embarcarem no discurso politicamente
“correcto”, repetirem slogans e apoiarem quem promete mudança, mas continuarem
a viver dia após dia sem fazer nada. Pinheiro de Azevedo dizia: “É só
fumaça, é só fumaça, o povo é sereno”. E muitas vezes, a serenidade
confundida com paciência, é para muitos, apatia que alimenta a
injustiça, permitindo que a desigualdade e a ganância cresçam sem obstáculo.
Enquanto se escreve, ouve-se Sérgio Godinho: a paz, o
pão, a liberdade, habitação para todos… Palavras que soam como uma miragem,
diante do que se vê todos os dias. Sonhar com um mundo assim não é luxo; é
necessidade humana, e é isso que inquieta, que faz crescer esta revolta.
Como alertou o Papa Francisco: “Esta economia mata”.
E sente-se isso na pele, nos olhos de quem vive à margem, na vida de quem luta
e continua íntegro, apesar de tudo. É neste contexto de desigualdade,
exploração e abandono que a revolta cresce e se torna urgente.
A revolta não é apenas política. É humana e ética. Nasce quando se vê o sistema
proteger os fortes e abandonar os frágeis, quando se percebe que se normaliza o
cinismo e se ridiculariza quem ainda acredita em justiça, solidariedade e
responsabilidade. Aceitar isto ou agir? A revolta só faz sentido se for o
primeiro passo para reconstruir uma sociedade mais justa e mais humana.
Chega de ser apaniguado, desinteressado, conformado. Chega de assistir à
injustiça sem reagir. A revolta de muitos pode ser a de cada leitor que se
recusa a ser cúmplice do abandono, da ganância e da desigualdade. É hora de
pensar, questionar, agir e exigir mais, pelo próximo, pela comunidade, pela
própria dignidade. A democracia não se constrói com silêncio nem com
indiferença: constrói-se com coragem, empatia e participação consciente. O
momento de deixar de ser apático é agora.















