Sinto‑me feliz por ter nascido em Portugal e na Europa.
Sinto‑me feliz por ter nascido em Portugal e na Europa.
“Por fora parecem formosos, mas por dentro…” (Mt 23,27)
Passaram 52 anos sobre o 25 de Abril. Cinquenta e dois anos de democracia, dezenas de governos, centenas de ministros, milhares de promessas e uma sucessão interminável de discursos sobre o “Portugal que queremos”. Pois bem: talvez esteja na hora de olhar para o Portugal que os políticos que nos governaram ao longo destas cinco décadas deixaram.
E a fotografia não é bonita.
A classe política que governou Portugal durante décadas gosta muito de celebrar Abril. Sobe ao palco, agita a bandeira da liberdade, faz discursos emocionados e fala dos grandes valores da democracia. Mas há uma pergunta que raramente aparece nesses discursos: o que fizeram com o país que receberam? Porque não basta conquistar a liberdade. É preciso saber o que fazer com ela.
O Serviço Nacional de Saúde é uma das maiores conquistas da democracia, mas encontra-se exausto, com urgências em dificuldades, falta de profissionais e médicos que procuram melhores condições no setor privado ou no estrangeiro. Durante décadas, os políticos repetiram que o SNS era uma prioridade. Mas uma prioridade não se defende com discursos: defende-se com investimento, organização, planeamento e respeito pelos profissionais.
Na Educação, a fotografia também não é bonita. Professores protestam, pais estão insatisfeitos, alunos são prejudicados e as escolas enfrentam problemas que se arrastam há anos. Mudam ministros, mudam programas, mudam modelos, mas os problemas permanecem.
Na Segurança Social, os políticos sabem há décadas que Portugal enfrenta um problema demográfico sério, com uma população envelhecida e menos jovens a entrar no mercado de trabalho. Sabem que o sistema precisa de ser sustentável. E, ainda assim, continuam a empurrar decisões difíceis para os governos seguintes.
E chegamos à habitação, uma das maiores demonstrações do fracasso das políticas públicas das últimas décadas. Uma geração inteira está a descobrir que trabalhar não chega para ter uma casa. Jovens adultos continuam em casa dos pais porque os salários não acompanham o preço das rendas e das habitações. Há pessoas com emprego que não conseguem pagar uma renda. Há casais que adiam ter filhos porque não conseguem garantir uma casa. E depois ainda se pergunta porque é que Portugal tem tão poucos nascimentos. Como poderiam os jovens construir uma família se nem sequer conseguem construir uma vida autónoma?
Durante décadas, os políticos portugueses habituaram-se a governar à vista. Quando o problema rebenta, cria-se uma medida. Quando há protestos, anuncia-se um pacote. Quando há eleições, aparecem promessas. E quando chega a hora de assumir responsabilidades, a culpa é sempre do governo anterior, da conjuntura internacional, da pandemia, da guerra, dos mercados ou de Bruxelas.
Vários partidos tiveram responsabilidades governativas e podem continuar a discutir entre si quem fez mais ou menos. Podem apresentar números, gráficos e estatísticas para provar que fizeram melhor do que os outros. Mas existe uma coisa de que já não podem fugir: a responsabilidade política acumulada de 52 anos de governação.
Não se trata, contudo, de dizer que todos os governantes foram maus. Seria injusto e seria também faltar à verdade. Portugal mudou profundamente desde 1974. Houve ministros e responsáveis políticos que deram o melhor de si pelo país. Conheci alguns. Conheci governantes verdadeiramente dedicados à causa pública, pessoas que trabalharam horas e horas, que colocaram o interesse coletivo à frente dos seus próprios interesses e que, em alguns casos, chegaram a sacrificar tempo com os filhos, com a família e consigo próprios. Existiram, felizmente. O problema é que foram muito poucos.
Tive mais de três décadas de participação ativa na vida política. Nunca tive grandes responsabilidades autárquicas ou governativas e não pretendo colocar-me no mesmo patamar de responsabilidade daqueles que efetivamente tiveram nas mãos os destinos do país, das nossas cidades, vilas e aldeias. Mas, dentro das possibilidades que tive e da representação que exerci, procurei sempre defender uma ideia muito simples: a política deve estar do lado dos mais pobres, dos mais frágeis e daqueles que têm menos capacidade para fazer ouvir a sua voz.
Foi essa a política em que sempre acreditei e continuo a defender!
E muitas vezes essa preocupação era abafada pelas estratégias dos grupos partidários. Outras vezes era desvalorizada, tratada como ingenuidade ou até motivo de gozo. Porque, infelizmente, fui percebendo ao longo dos anos que, para uma parte da classe política, a prioridade nem sempre era a vida concreta das pessoas. Muitas vezes eram as lutas internas, os lugares, as estratégias partidárias, os equilíbrios de poder, as eleições seguintes e a sobrevivência política.
E isso é uma das maiores desilusões que alguém pode levar de décadas de participação política: perceber que aquilo que deveria ser uma missão de serviço público acaba, demasiadas vezes, transformado numa disputa permanente pelo poder.
Não se trata de dizer que Portugal não evoluiu. Evoluiu, e muito. Temos mais liberdade, mais direitos, melhores condições de vida e uma sociedade incomparavelmente diferente daquela que existia antes de Abril. Mas isso não dá aos políticos que nos governaram um cheque em branco. Abril não pode ser utilizado como uma espécie de certificado de qualidade para cinco décadas de decisões políticas.
Abril foi feito para libertar pessoas. E liberdade também é poder viver com dignidade.
É poder ter acesso a um médico quando se está doente. É ter uma escola capaz de ensinar. É ter um salário que permita viver. É conseguir pagar uma casa. É poder constituir família sem medo de não conseguir chegar ao fim do mês. É saber que a Segurança Social estará lá quando for necessária.
Por isso, está definitivamente na altura de trocar os discursos de circunstância por uma pergunta incómoda aos políticos que nos governaram durante estas cinco décadas: depois de 52 anos a mandar, a governar, a prometer e a justificar, não acham que já está na altura de assumir responsabilidades?
Porque a democracia não é apenas votar. É também prestar contas. E os políticos que governaram Portugal durante 52 anos têm de responder por aquilo que fizeram, mas também por aquilo que não fizeram.
E eu, que vivi mais de três décadas desta democracia, também por dentro da política, não escrevo isto por ressentimento. Escrevo-o porque continuo a acreditar que a política pode e deve ser diferente. Porque continuo a acreditar que estar ao lado dos mais pobres, dos mais fracos e dos que têm menos voz não é ingenuidade. É a razão pela qual a política deveria existir.
A fotografia não é bonita. E fingir que não a vemos não vai torná-la melhor.
Cláudio Anaia
Vivemos numa época em que as tradições religiosas são, por
vezes, vistas como meras recordações do passado. No entanto, basta olhar para a
história para perceber que a devoção a Nossa Senhora do Rosário não nasceu de
uma simples manifestação de piedade popular. Ela nasceu da convicção de que a
oração pode transformar pessoas, fortalecer comunidades e dar esperança nos
momentos mais difíceis.
Segundo a tradição, foi em 1212 que São Domingos de Gusmão
recebeu da Virgem Maria o Rosário, durante a sua permanência em Toulouse, como
resposta à forma de enfrentar a heresia albigense. Desde então, o Rosário
tornou-se uma escola de oração acessível a todos: ricos e pobres, letrados e
analfabetos, jovens e idosos. A sua simplicidade permitiu que atravessasse
séculos e fronteiras, tornando-se uma das mais belas expressões da fé popular.
Não por acaso, o Papa Francisco referiu-se a esta devoção como uma verdadeira
"mística do povo".
Mas a história do dia 7 de outubro remete-nos também para um
dos acontecimentos mais marcantes da Europa cristã. Em 1571, perante o avanço
do Império Otomano, foi formada a Santa Liga. O Papa São Pio V, dominicano e
profundamente devoto de Nossa Senhora, pediu aos cristãos que rezassem o Santo
Rosário enquanto os exércitos combatiam na Batalha de Lepanto.
A vitória alcançada nesse dia foi entendida como fruto da
intercessão da Virgem Maria. Em sinal de gratidão, São Pio V instituiu a festa
de Santa Maria da Vitória, mais tarde designada pelo Papa Gregório XIII como
Festa de Nossa Senhora do Rosário. Outros acontecimentos históricos reforçaram
esta devoção, como a libertação de Viena, em 1683, ou o fim da peste em Veneza,
acontecimentos que muitos crentes atribuíram à proteção da Mãe de Deus.
Independentemente da leitura histórica que cada um faça
destes episódios, permanece um facto inegável: o Rosário tornou-se uma oração
que atravessou gerações e continua viva na vida da Igreja. Em Lourdes, em
Fátima e noutras aparições marianas reconhecidas, Nossa Senhora voltou a pedir
insistentemente a recitação do Terço como caminho de conversão, de paz e de
reconciliação.
No Barreiro, esta celebração ganha um significado muito
próprio. Nossa Senhora do Rosário não é apenas um título mariano; é a Padroeira
da cidade. A sua devoção faz parte da memória coletiva, da identidade local e
do património espiritual que ajudou a moldar gerações de barreirenses.
É por isso que, na nossa tradição local, a grande festa
popular em honra de Nossa Senhora do Rosário foi transferida para o mês de
agosto, coincidindo com as Festas do Barreiro . Esta mudança, pensada sobretudo
para conciliar as celebrações com o período de verão e com o feriado nacional
de 15 de agosto (Assunção de Nossa Senhora), permite integrar a devoção
religiosa no coração dos festejos da cidade. A tradição barreirense mantém viva
a celebração em redor desta data, unindo a população através das suas marcantes
e tradicionais procissões marítima e terrestre.
As festas em sua honra, as procissões e as celebrações
litúrgicas recordam-nos que uma comunidade também se constrói através das suas
raízes, da sua cultura e da sua fé. Num tempo marcado por guerras, polarização,
individualismo e crescente indiferença religiosa, talvez o maior desafio não
seja apenas preservar tradições, mas compreender o seu significado.
O Rosário continua a povoar algo profundamente actual:
dedicar alguns minutos por dia ao silêncio, à oração, à contemplação e à paz
interior. Num mundo onde tudo corre, talvez seja precisamente isso que mais
falta. Celebrar Nossa Senhora do Rosário não significa viver preso ao passado.
Significa reconhecer que há valores que permanecem intemporais: a esperança, a
confiança, a solidariedade e a capacidade de olhar para o futuro sem perder as
raízes.
No próximo dia 7 de outubro, o Barreiro celebrará liturgicamente a sua Padroeira. Que essa celebração, bem como as festividades que vivemos em agosto, sejam mais do que uma simples tradição. Que sejam uma oportunidade para redescobrir a riqueza da nossa história e renovar o compromisso de construir uma comunidade mais fraterna, mais humana e mais unida. Afinal, uma cidade que conhece as suas raízes está sempre mais preparada para enfrentar o futuro.
Cláudio Anaia
«Um bom católico deve meter-se na
política.» - Papa Francisco
A afirmação
do Papa Francisco, «um bom católico deve meter-se na política», encerra uma
profundidade muito maior do que a sua aparente simplicidade deixa antever. Não
é um comentário circunstancial nem uma tomada de posição partidária. É uma
interpelação moral, espiritual e cívica dirigida a uma sociedade onde a
indiferença, o individualismo e o esvaziamento ético parecem ganhar terreno.
Vivemos um
tempo paradoxal. Nunca existiram tantos instrumentos de participação, tanta
liberdade de expressão e tanto acesso à informação. Ainda assim, cresce o
afastamento dos cidadãos da vida pública. Muitos desistiram da política porque
deixaram de acreditar nela. Outros refugiaram-se numa espiritualidade
intimista, desligada da realidade concreta do sofrimento humano. E não faltam
aqueles que, absorvidos pelas exigências da sobrevivência quotidiana, perderam
a disponibilidade para pensar o bem comum. É neste contexto que as palavras de
Francisco adquirem um alcance quase profético.
Quando fala
de política, o Papa não se refere apenas a partidos, eleições ou maiorias
parlamentares. Fala da polis, da cidade enquanto espaço de convivência,
responsabilidade e destino partilhado. Fala da forma como escolhemos distribuir
oportunidades, proteger os mais vulneráveis, promover a justiça e preservar a
dignidade de cada pessoa.
Esta visão
está perfeitamente alinhada com o cristianismo. Desde a sua origem, o Evangelho
nunca foi apenas uma proposta de salvação individual. Cristo falou dos pobres,
dos excluídos, da fome, da hipocrisia, da exploração e do abuso do poder. A fé
cristã nasceu inseparável da preocupação pelo outro e da inquietação perante o
sofrimento humano.
É dessa
herança que nasce a doutrina social da Igreja. A fé não se esgota na oração nem
na profissão de princípios abstratos. Exige compromisso com a realidade. Não
basta proclamar valores; é necessário traduzi-los em escolhas concretas. A
neutralidade perante a injustiça dificilmente pode ser apresentada como uma
virtude cristã.
Ao afirmar
que um bom católico deve envolver-se na política, Francisco confronta uma das
grandes tentações do nosso tempo: a da fuga. A fuga para a crítica permanente,
para o conforto das redes sociais, para uma religiosidade sem consequências
públicas ou para o cinismo resignado de quem repete que «são todos iguais».
O problema é
que a política não fica suspensa quando os cidadãos de consciência se afastam.
Os espaços deixados vazios acabam inevitavelmente ocupados por quem vê o poder
como um fim em si mesmo. É assim que prosperam os extremismos, os populismos e
todas as formas de radicalização que corroem as democracias.
Importa,
porém, evitar um equívoco. Francisco não propõe uma política confessional nem
pretende transformar a religião num instrumento de poder. A História demonstra,
com demasiada frequência, os perigos da fusão entre as autoridades política e
religiosa. O que o Papa defende é outra coisa: uma política inspirada por
princípios éticos, aberta ao diálogo e orientada pelo serviço.
Uma fé
amadurecida não fabrica inimigos nem absolutiza ideologias. Humaniza a
política. Recorda que por detrás das estatísticas existem pessoas; que uma
economia sem ética produz exclusão; que o progresso sem humanidade gera
solidão; e que o desenvolvimento material, quando perde de vista a dimensão
espiritual, acaba por empobrecer a própria condição humana.
Talvez um
dos maiores dramas da modernidade tenha sido a pretensão de substituir a
transcendência por ideologias apresentadas como soluções definitivas para todos
os problemas. Muitas dessas promessas acabaram por gerar violência, opressão e
desumanização. Como observou James H. Billington, diversos movimentos
revolucionários assumiram características quase religiosas, exigindo uma adesão
absoluta aos seus projetos e tratando a dissidência como heresia.
Francisco
surge, neste contexto, como uma voz de resistência a essa lógica. Recorda que a
política deve permanecer consciente dos seus limites. Não é um espaço de
redenção absoluta, mas de serviço imperfeito, diálogo permanente e procura
paciente do bem comum.
As suas
palavras são também um apelo à coragem. Participar na vida pública exige
disponibilidade para ouvir, capacidade de aceitar a diferença e sentido de
responsabilidade. Exige construir onde tantos preferem comentar, criar pontes
onde outros levantam muros e servir quando é mais fácil procurar protagonismo.
Nenhuma
democracia sobrevive apenas com espectadores.
No fundo, é
essa a verdadeira mensagem de Francisco. A fé não pode reduzir-se a um refúgio
privado perante o caos do mundo. Deve traduzir-se numa presença transformadora
na sociedade, não através da imposição ou da arrogância moral, mas por meio da
compaixão, da justiça e da responsabilidade.
Porque uma
das formas mais exigentes, e mais autênticas, de amar o próximo é trabalhar
para que a sociedade se torne um lugar mais justo e humano para todos, sem excepção.
Cláudio Anaia
O verdadeiro valor de uma sociedade mede-se
pela forma como protege a dignidade de cada pessoa, sobretudo dos mais pobres e
dos mais vulneráveis.
Por isso, impõem-se questões essenciais: para que servem as leis? Para que servem as declarações de direitos humanos? Para que servem todas as convenções e os discursos solenes se, perante a injustiça, tantas vezes nada se faz? Uma sociedade que proclama princípios, mas não os concretiza corre o risco de esvaziar a própria ideia de justiça.
Mas, depois de tudo o que vi e vivi, ficou-me uma conclusão que me marcou profundamente: em demasiados casos, o centro das preocupações não era o bem comum, nem a justiça, nem a melhoria da sociedade. Era, acima de tudo, a preservação do estatuto, do poder e, muitas vezes, a proteção dos círculos mais próximos, dos amigos, dos aliados e dos interesses pessoais.
E essa responsabilidade não distingue funções nem hierarquias. Não importa se alguém é professor, político, líder religioso ou juiz. A obrigação de defender a justiça é universal. Quanto maior a responsabilidade pública, maior deve ser também a exigência moral. Nenhum título isenta alguém da obrigação de agir corretamente.
O silêncio perante a injustiça nunca é neutralidade. É uma escolha. E toda a escolha tem consequências. Há uma verdade dura, mas necessária: quando não defendemos os direitos dos outros, perdemos também algo essencial em nós próprios — a nossa própria dignidade. O silêncio perante o que é errado corrói a integridade interior e normaliza o inaceitável.
Por isso, nunca devemos permanecer calados perante a injustiça. Porque, além de preservarmos o respeito por nós próprios, estamos a fazer aquilo que é certo. E fazer o que é certo nem sempre é fácil. Exige coragem, firmeza e, muitas vezes, exige ir contra a corrente.
É precisamente aí que se mede o valor de uma pessoa e de uma sociedade: na capacidade de não desistir da justiça quando ela é mais necessária.
No fim, a justiça não vive apenas nas leis escritas. Vive, sobretudo, nas escolhas diárias de cada cidadão. Enquanto houver quem recuse o silêncio perante a injustiça, haverá sempre esperança de uma sociedade mais digna, mais consciente e mais humana.
Hoje, ser afetivo é cada vez mais um risco social. Num
tempo em que um gesto pode ser descontextualizado e julgado em segundos, O
Beijo no Asfalto recorda-nos que a compaixão continua a ser uma das maiores
vítimas do preconceito, do sensacionalismo e da velocidade com que se condenam
pessoas inocentes.
Ontem no Festival de Almada tive a
oportunidade de assistir a O Beijo no Asfalto, de Nelson Rodrigues, numa
produção do Teatro Nacional São João, com encenação de Tónan Quito.
Saí da sala com a sensação de ter visto muito mais do que um
espetáculo. Vi um espelho da sociedade contemporânea. É precisamente essa a
grande força dos clássicos: continuam a falar connosco, mesmo quando foram
escritos há mais de seis décadas.
Durante a representação, ocorreu-me várias vezes que Nelson
Rodrigues parecia ter escrito esta obra para o mundo das redes sociais.
Estreada em 1960, a sua mensagem encaixa de forma quase perfeita na realidade
de 2026.
A história é simples. Um homem, mortalmente atropelado, faz
um último pedido: um beijo. Arandir, movido apenas pela compaixão, satisfaz
esse desejo. O que deveria ser recordado como um gesto profundamente humano
transforma-se numa condenação pública. Os factos deixam de interessar. O
preconceito, a insinuação e o sensacionalismo tomam conta da narrativa.
Nelson Rodrigues mostra como uma sociedade pode fabricar um
culpado sem necessidade de provas. O jornalista Amado Ribeiro não procura a
verdade; procura uma história que desperte emoções, venda jornais e alimente a
curiosidade pública. A suspeita torna-se mais poderosa do que os factos.
Enquanto assistia ao espetáculo, não consegui deixar de
pensar que, se Nelson Rodrigues escrevesse O Beijo no Asfalto hoje, Amado
Ribeiro talvez não fosse jornalista. Seria um influenciador digital ou um
criador de conteúdos com milhões de seguidores. O beijo seria gravado por um
telemóvel, publicado em segundos e transformado num fenómeno viral. Antes de
qualquer explicação, surgiriam hashtags, comentários indignados, vídeos de
reação e julgamentos sumários.
Hoje, o velho sensacionalismo encontrou um aliado poderoso:
o algoritmo.
As plataformas digitais privilegiam aquilo que gera maior
envolvimento. E poucas coisas captam tanto a atenção como a polémica, a
indignação e o escândalo. A economia da atenção recompensa quem acusa primeiro,
não quem verifica melhor. A mentira, repetida milhares de vezes, ganha uma
aparência de verdade.
Foi precisamente essa atualidade que mais me impressionou. A
encenação não se limitou a reviver um clássico do teatro brasileiro; revelou
como os mecanismos da demonização permanecem praticamente inalterados. Mudaram
os meios de comunicação, mas continuam presentes o preconceito, a manipulação
da opinião pública e a facilidade com que se destrói a reputação de alguém.
Os antigos boatos de bairro foram substituídos pelos
tribunais das redes sociais. Nos comentários, qualquer utilizador se sente
juiz. A presunção de inocência desaparece perante a pressão dos
"gostos", das partilhas e das tendências do momento. Em poucas horas,
uma pessoa pode ser condenada sem direito a defesa.
Talvez seja essa a maior lição de O Beijo no Asfalto. A
verdadeira coragem não está apenas em realizar um gesto de humanidade, como fez
Arandir. Está também em resistir à tentação de julgar antes de compreender, de
partilhar antes de verificar e de condenar antes de conhecer os factos.
Saí do Festival de Almada convencido de que tinha assistido
a uma das produções mais marcantes desta edição. O Beijo no Asfalto não é
apenas um clássico do teatro. É um aviso para o nosso tempo. Num mundo dominado
pela velocidade da informação e pelos algoritmos, continua a lembrar-nos que
nenhuma tecnologia substitui a responsabilidade moral de procurar a verdade
antes de condenar alguém.
Mais de seis décadas depois da sua estreia, Nelson Rodrigues
continua a fazer-nos uma pergunta incómoda: seremos capazes de preservar a
humanidade de um gesto ou continuaremos a sacrificar as pessoas no altar da
opinião pública?
Cláudio Anaia
Foto : José Caldeira - TNSJ
Feira
Medieval de Canha regressa de 24 a 26 de Julho com dimensão internacional
A vila de Canha prepara-se para acolher mais uma edição da
sua prestigiada Feira Medieval, que decorrerá nos dias 24,25 e 26 de Julho de 2026, num evento que continua a afirmar-se
como uma das mais relevantes recriações históricas do país.
O reconhecimento da qualidade da Feira Medieval de Canha
ultrapassou já as fronteiras nacionais. Por indicação da Federação Portuguesa
das Festas Históricas, a Confédération Européenne des Fêtes et Manifestations
Historiques distinguiu o certame canhense, reconhecendo o rigor histórico, a
qualidade artística e a capacidade de proporcionar uma verdadeira experiência
de recriação medieval aos seus visitantes.
Nesta edição, a Feira Medieval de Canha convida o público a
viajar até ao século XIII, à Corte de D. Dinis e de D. Isabel de Aragão, a
Rainha Santa. Durante três dias, a vila transforma-se num autêntico cenário
medieval, onde se cruzam mercadores vindos de outras paragens, artesãos,
cavaleiros, músicos, dançarinos, saltimbancos, poetas e personagens históricas
que recriam os costumes, os ofícios e as vivências da época.
O programa apresenta uma forte componente cultural e
internacional, destacando-se os concertos dos Antikua e Eduardo Ramos, bem como
diversas atuações de grupos nacionais e estrangeiros.
Entre os momentos mais aguardados contam-se as “Danses de la
Cour Royale”, apresentadas pelo séquito francês que acompanha Isabel de Aragão,
a presença dos Sbandieratori do Ducato di Parma e dos músicos da Compagnia La
Giostra, da Sicília, numa elegante soirée italiana oferecida ao povo de Canha
pela princesa Vataça Lascaris , dama da rainha.
O concerto de João
Mendonza, um dos mais prestigiados tenores portugueses da atualidade, viveu um
dos momentos mais marcantes da sua carreira quando, em 2018, o projeto Passione
foi convidado pelo Estado do Vaticano.
O público poderá ainda desfrutar de uma envolvente noite
árabe, protagonizada pelos grupos Vahdat Ensemble, Al Caravan e Eduardo Ramos , que trarão ao recinto danças
orientais, sufi e thanora, numa celebração da diversidade cultural que marcou o
mundo medieval.
O programa inclui ainda teatro de fogo, torneios, ceias
medievais, animação itinerante, folguedos populares, demonstrações de artes e
ofícios tradicionais e inúmeras atividades para todas as idades.
Com a organização do Círculo de Majalis e apoio da Camara
Municipal do Montijo, da Corte Francesa e da Corte Italiana, a Feira Medieval
de Canha assume-se cada vez mais como um evento histórico de referência no
calendário nacional, distinguindo-se pela sua dimensão cultural, pela qualidade
dos seus conteúdos e pelo envolvimento da comunidade local.
Mais do que uma feira temática, Canha oferece uma experiência imersiva na História, onde o património, a cultura e a animação se unem para proporcionar três dias inesquecíveis a milhares de visitantes.
Veja a programação CLICA AQUI
Olá, amigo Jesus,
Sei que converso contigo todos os dias, na oração. Mas hoje escrevo-Te uma carta aberta para que todos a possam ler e saibam que és o mais importante da minha vida. Que conheçam um pouco daquilo que tantas vezes conversamos.
Jesus, escrevo-Te para agradecer porque estás sempre disponível para me escutar. Apesar de Te preocupares com todos os homens e mulheres do mundo inteiro, és sempre capaz de dedicar uma atenção especial a cada um de nós. E eu sinto isso como se fosse único.
Sei que me escutas. Sinto-o tantas vezes ao longo da minha vida que sei que posso falar-Te de coração aberto. Venho contar-Te as minhas ambições, os meus problemas, as minhas dúvidas, os meus anseios e inquietações. Venho falar-Te do mundo, da paz e da guerra, da esperança e dos medos. Venho até falar-Te de Ti, Jesus.
Sabes, Jesus, continuas a despertar interesse, a ser motivo de grandes debates, a inspirar grandes pesquisas e a suscitar grandes paixões. Não passaste à História. Tu és hoje, como foste ontem e como serás amanhã. Tu és o Senhor. És de sempre.
Há, contudo, algo que me perturba e entristece: como é possível haver pessoas que dizem seguir-Te e que provocam tanta guerra, tanto sofrimento e vivem sem alegria? Tenho de rezar por elas, e esforço-me sinceramente por fazê-lo.
Mas a Tua mensagem é tão simples de compreender. Basta aceitá-la e vivê-la com coerência. Quando isso acontece, a vida torna-se mais simples, porque Tu convences, apaixonas, mobilizas e transformas.
Jesus, ajuda-me a estar cada vez mais disponível para os outros. Ajuda-me a amar até aqueles que não gostam de mim e que me perseguem, como tantas vezes nos ensinas.
Ajuda-me também porque sou pecador. Nem sempre consigo dar testemunho de Ti como gostaria. Dá-me força para que cada novo dia seja uma oportunidade para ser melhor do que fui ontem.
Obrigado por me perdoares sempre, por me ajudares a levantar depois de cada queda e por nunca desistires de mim.
Sabes que gosto muito de ler livros, jornais e tudo o que me permita aprender. Gosto de conhecer pessoas, culturas e formas diferentes de ver a vida. E, quanto mais conheço o mundo, mais certeza tenho de que jamais encontrei — nem encontrarei — alguém como Tu.
Poderia escrever páginas e mais páginas sobre aquilo que representas na minha vida. Mas Tu sabes que me sinto profundamente feliz por ser um dos Teus seguidores. Não me incomoda minimamente quando me gozam ou não me levam a sério por acreditar em Ti. Tenho orgulho em fazer parte daqueles que Te amam e por um dia Te terem aceite como o único Salvador da sua vida.
Sei que alguns dizem que sigo a doutrina do carpinteiro de Nazaré, Aquele que sofreu horrores e morreu na cruz por amor à humanidade. E eu sorrio, porque sei em Quem acredito.
Sabes, mudaste a minha vida. Graças a Ti encontro força para continuar, energia para lutar e esperança para recomeçar. A Tua presença é fundamental para mim. A minha alegria nasce de Ti e, por isso, tudo o que faço procuro fazê-lo porque Te tenho no meu coração.
Obrigado, Jesus, porque sem Ti não consigo imaginar a minha vida. Ela pertence-Te e é por isso que sou verdadeiramente feliz.
Recebe um abraço deste Teu amigo.
Que a Tua paz continue connosco, hoje e sempre.
Cláudio Anaia
claudioanaia@hotmail.com
Viver o verdadeiro “carpe diem”
começa na coragem de pensar pela própria cabeça.
Há obras que não terminam quando acabam.
Continuam connosco, em silêncio, a trabalhar por dentro. Foi isso que me
aconteceu depois de ver, no passado domingo, a peça Clube dos Poetas Mortos,
no Teatro da Trindade INATEL.
Saí de lá profundamente tocado, como já tinha
acontecido quando vi o filme há muitos anos. A figura do professor John Keating
voltou com força, com a sua forma simples, mas profundamente humana, de olhar
para a vida. Uma forma que nos empurra, quase em silêncio, a viver com mais
verdade, mais consciência e mais intensidade.
O professor não ensinava apenas literatura. Mais
do que isso, ensinava os seus alunos a pensar pela sua própria cabeça, a
questionar o que lhes era imposto como verdade e a procurar a sua própria voz.
Nunca lhes dizia o que deviam pensar. Mostrava-lhes, isso sim, que pensar por
si próprios é um ato de liberdade. E talvez seja isso que mais nos marca.
No regresso a casa, durante a viagem de barco
entre Lisboa e o Barreiro, fui tomado por esse impacto. A peça ainda estava
viva em mim. E senti necessidade de escrever. De parar um pouco dentro do ritmo
do dia e dar forma ao que estava a sentir.
Clube dos Poetas Mortos é um dos meus
filmes preferidos. Não apenas pela história, mas pelo que desperta em nós. É
uma dessas obras que regressam sempre nos momentos em que nos perguntamos como
estamos a viver, e, sobretudo, se estamos mesmo a viver.
“Carpe diem” tornou-se uma expressão
repetida até perder, muitas vezes, o seu peso. Mas a verdade é simples, viver o
presente, não adiar a vida, não deixar que o medo decida por nós.
Ao pensar nisso, é inevitável olhar para o mundo
à nossa volta. Vivemos numa sociedade que fala muito de liberdade de pensamento
e de expressão, mas onde, tantas vezes, quem pensa pela própria cabeça acaba
por não ser bem recebido. No trabalho, na política, nas organizações, até nas
relações mais próximas, há quem questione, quem procure compreender antes de
aceitar, quem não se deixa moldar facilmente, e isso, por vezes, isola.
Torna-se desconfortável para os outros. E esse desconforto pode transformar-se em
muitos casos em afastamento.
É curioso como, tantos anos depois, a mensagem de
John Keating continua tão atual. Ele não queria alunos que repetissem ideias.
Queria pessoas capazes de pensar por si próprias, de construir as suas próprias
convicções e de viver com a coragem de ser diferentes quando a consciência
assim o pedisse. Talvez hoje nos falte precisamente isso, menos repetição, mais
pensamento próprio.
No meu percurso pessoal e profissional, essa
ideia tem sido uma espécie de bússola. Nem sempre é fácil. Nem sempre é
compreendida. Mas aprendi a aceitá-la como parte de quem sou. Pensar pela
própria cabeça tem um preço, mas também tem um valor que não sei viver sem ele.
“Carpe diem” não é viver sem
consequências. É viver com consciência, mas sem adiar o essencial. É dar valor
às coisas pequenas, uma conversa, uma palavra, um gesto, que, às vezes, mudam
mais do que imaginamos.
A vida ganha sentido quando não a vivemos apenas
para nós próprios. Quando há partilha, quando há entrega, quando há a vontade
sincera de deixar alguma coisa boa nas pessoas que cruzam o nosso caminho.
No fundo, talvez seja isto, não adiar quem somos,
mesmo quando o mundo parece pedir outra coisa. E, ainda assim, continuar a
acreditar.
Cláudio Anaia
A verdadeira grandeza do homem mede-se pela profundidade da sua fé, não pela altura da sua posição.
Porque é nesse gesto simples e silencioso que o homem deixa de querer
controlar tudo e passa a entregar. A pressa cede lugar à escuta, e a arrogância
dá espaço à verdade. De joelhos, o homem não se diminui; reencontra o seu
lugar: o da consciência e da humildade. O maior homem não é o que se impõe aos
outros, nem aquele que ocupa posições de destaque na empresa, no clube ou na
política. É aquele que, em silêncio, se coloca de joelhos diante de Deus.
Ajoelhar em oração não é sinal de fraqueza, mas de coragem interior. É
reconhecer limites, fragilidades e a necessidade de algo maior do que nós.
Quando o homem se ajoelha diante de Deus, não foge da vida; aprende a vivê-la
de outra forma. Não se coloca acima do mundo, mas em ligação com aquilo que o
sustenta. Na oração, deixa de precisar de provar tudo. Deixa de viver apenas na
força própria e passa a escutar, confiar e entregar. Nesse momento discreto,
muitas vezes invisível aos olhos do mundo, acontece algo essencial: o encontro
entre a fragilidade humana e a presença de Deus.
A verdadeira grandeza talvez não esteja na altura a que alguém chega, mas na
profundidade da sua fé; não no ruído que faz, mas no silêncio em que se coloca
diante do Criador. Esta verdade não se vive apenas nos momentos solenes.
Quando me sento à mesa, em casa, num café ou num restaurante para tomar uma
refeição, , faço sempre a minha oração e o sinal da cruz. Há quem olhe com
estranheza, mas esse gesto não é uma exibição. É apenas a forma de me colocar
em sintonia com Deus.
Para mim, Deus não é a última opção.
É a primeira.
Quem ora não vive com pressa de mais; vive com outra paz, uma paz que não
depende do lugar, nem do olhar dos outros, nem do ruído à sua volta. É uma paz
que nasce da certeza de que não caminhamos sozinhos. Talvez seja isso que
muitos não compreendam: ajoelhar ou orar em silêncio não é afastar-se da vida,
é habitá-la com mais verdade.
O maior homem é, afinal, aquele que sabe ajoelhar-se em oração, não para
fugir do mundo, mas para o compreender melhor; não para desistir da vida, mas
para a viver com mais sentido.
E nesse gesto simples e repetido pode estar uma das formas mais profundas de
caminhar para a felicidade.
(Foto tirada na Catedral de nossa Senhora da Assunção em Tanger. 04-06-2026)
Entre o progresso e a pressa, corre-se o risco de esquecer o essencial: a dignidade da pessoa humana.
A encíclica Magnifica Humanitas (Magnífica Humanidade), do Papa Leão
XIV, não se limita a uma reflexão sobre tecnologia. Na verdade, ela toca no
coração das grandes tensões sociais do nosso tempo: o trabalho, a economia, a
política global e a forma como tratamos o outro na vida em sociedade.
Desde logo, há uma ligação histórica evidente: o diálogo direto com a
tradição inaugurada pelo Papa Leão XIII na Rerum Novarum. Se Leão XIII
respondeu à Revolução Industrial e às profundas desigualdades do mundo operário
do século XIX, Leão XIV procura agora responder a uma nova transformação
estrutural da sociedade: a revolução digital e a inteligência artificial. Em
ambos os casos, a preocupação é a mesma: a defesa da dignidade humana perante
sistemas económicos e tecnológicos que tendem a ultrapassar o controlo ético da
sociedade.
O ponto central da encíclica é claro: o ser humano não pode ser reduzido a
uma peça funcional de um sistema produtivo. Num mundo onde a automação e a
inteligência artificial avançam a grande velocidade, o risco não é apenas a
mecanização de tarefas, mas a substituição silenciosa da própria centralidade
do humano.
A crítica à lógica do lucro surge aqui com força. Quando tudo passa a ser
medido por eficiência, produtividade e rentabilidade, a sociedade começa a
perder o sentido do bem comum. O trabalho deixa de ser realização humana e
passa a ser apenas um custo ou um recurso. E, quando isso acontece, a dignidade
fica esquecida e ignorada.
Daqui nasce a exigência de justiça social. O progresso tecnológico, para ser
legítimo, não pode produzir apenas riqueza concentrada; tem de gerar inclusão,
proteção e equilíbrio. Caso contrário, a modernização transforma-se num
mecanismo de desigualdade acelerada.
A encíclica insiste também na urgência de recuperar o diálogo. Num tempo
marcado pela polarização, pela agressividade e pela fragmentação social, o Papa
lembra que sem escuta não há sociedade, apenas ruído. O diálogo verdadeiro
exige tempo, respeito e abertura à diferença — algo cada vez mais raro na
cultura digital.
No plano internacional, surge o apelo ao multilateralismo. Nenhum país
consegue enfrentar sozinho os desafios da tecnologia, das migrações, do clima
ou da paz. O mundo interligado exige cooperação, instituições fortes e uma
visão global do bem comum.
Um dos alertas mais fortes do texto é o combate à cultura da indiferença. A
indiferença social não é neutralidade: é uma forma de desistência moral.
Habituar-se ao sofrimento dos outros é um dos sinais mais perigosos de uma
sociedade que começa a perder a sua consciência ética.
Ao mesmo tempo, a encíclica rejeita de forma clara as visões transhumanistas
que procuram ultrapassar ou substituir a condição humana através da tecnologia.
Para Leão XIV, não há algoritmo, máquina ou sistema que possa substituir a
consciência, a alma, o amor, o perdão ou a dimensão espiritual da pessoa
humana.
Na minha opinião, a Magnifica Humanitas é mais do que um documento
religioso. É um espelho do nosso tempo. Um tempo em que a tecnologia cresce de
forma exponencial, mas onde a pergunta essencial continua a ser a mesma:
estamos a evoluir como sociedade ou apenas como máquinas mais sofisticadas?
No fim, tudo regressa ao essencial: nenhuma inovação faz sentido se o ser
humano deixar de ser o centro.
Cláudio Anaia
O que nos assusta por dentro muitas vezes perde força quando encontra o outro.
A minhas férias em Goa, sem dúvida deixaram marcas em mim, nesse período, numa festa de aniversário de uma criança, para a qual fui convidado, assisti a uma intervenção pública de um padre que me deixou a pensar. No meio da celebração, num contexto simples e aparentemente leve e descontraído, acabou por partilhar uma história profundamente reveladora sobre a forma como muitas vezes lidamos com aquilo que nos pesa interiormente. Contou que uma senhora tinha ido ter com ele, aflita, dizendo que carregava um grande problema e que vivia aquela situação com uma angústia constante, procurando uma resposta imediata, algo que lhe devolvesse alguma paz ou, pelo menos, um caminho claro para sair daquele estado de inquietação. O padre, no entanto, não lhe deu uma solução direta nem tentou desmontar o problema naquele momento. Em vez disso, disse-lhe algo inesperado e até desconcertante: “Durante uma semana, fale com várias pessoas. Depois volte cá e falamos.” A senhora saiu sem perceber totalmente o sentido daquela orientação, mas seguiu o conselho. Uma semana depois, voltou a encontrar-se com o sacerdote e, de forma quase surpreendente, disse-lhe apenas: “Já nem me lembro do problema que me trouxe aqui.”
Esta resposta, simples e quase desarmante, abre espaço para uma reflexão que vai muito para além da situação concreta. Vivemos hoje numa sociedade onde muitos problemas ganham dimensão não apenas pela sua natureza real, mas sobretudo pela forma como são vividos em isolamento. Crescem no silêncio, alimentados pela repetição mental, pela ausência de confronto com outras perspetivas e pela tendência, cada vez mais comum, de nos fecharmos dentro da nossa própria leitura do mundo. Falamos constantemente e estamos ligados o tempo todo, mas isso não significa que exista verdadeira partilha. Há comunicação em excesso, mas escassez de encontro real e, quando não há encontro, o risco é ficarmos presos dentro da nossa própria narrativa, onde tudo se amplifica e ganha um peso que muitas vezes não teria se fosse exposto ao olhar do outro.
O gesto daquele padre não foi o que se poderia esperar, porque não procurou resolver o problema no imediato nem oferecer uma resposta pronta, antes procurou retirar aquele sofrimento do isolamento em que estava fechado, devolvendo-o ao contacto humano, à diversidade de vozes e à realidade partilhada, e isso muda tudo. Há situações que não precisam apenas de respostas rápidas, mas de serem colocadas novamente em circulação na vida, no diálogo e no encontro com os outros. No fundo, esta história lembra-nos algo simples, mas cada vez mais esquecido: nem tudo o que pesa dentro de nós tem a dimensão que assume quando estamos sozinhos com ele. Muitas vezes, o maior problema não é aquilo que sentimos, mas o facto de o vivermos sozinhos tempo demais.
Cláudio Anaia
Ser livre é não responder ao mal com o mesmo mal, porque o sábio não se rebaixa ao nível de quem o provoca.
Vivemos tempos estranhos e complicados. Um tempo em que a agressividade parece muitas vezes recompensada, em que o ruído vale mais do que a serenidade e onde a reação imediata substitui quase sempre a reflexão. Basta olhar para as redes sociais, para a política, para certos ambientes profissionais e, infelizmente, até dentro da própria Igreja e da própria família: há pessoas que ferem, atacam, manipulam e seguem caminho como se nada tivesse acontecido.
E é muitas vezes, neste cenário que se joga uma das maiores medidas da nossa humanidade: não na forma como reagimos quando somos feridos, mas na decisão consciente de não nos tornarmos iguais a quem nos fere.
Porque a dor tem esse poder subtil e perigoso. Pode endurecer-nos. Pode empurrar-nos para a vingança, para a frieza, para a lógica do “eu também faço igual”. Há quem, depois de ser traído, aprenda a trair. Quem, depois de ser humilhado, escolha humilhar. Quem, depois de ser ferido, passe a viver como se ferir os outros fosse uma forma legítima de equilíbrio.
Mas é neste ponto que se separa a reação da grandeza.
Ser maior não é não cair na dor. É não deixar que a dor nos transforme em algo que não queremos ser. É precisamente quando somos atingidos que se revela aquilo que somos por dentro. E a verdadeira grandeza humana não está em devolver o mal recebido, mas em recusar-se a reproduzi-lo.
Há uma diferença profunda entre justiça e vingança. A justiça protege, estabelece limites, corrige o que está errado. A vingança, pelo contrário, contamina quem a pratica. E é por isso que não há vitória nenhuma em responder à agressão com a mesma agressão. Pode dar uma sensação momentânea de equilíbrio, mas deixa sempre um vazio mais fundo.
Ser maior do que quem nos fere não é fraqueza. É maturidade. É domínio interior. É liberdade. Porque quem reage igual ao agressor deixa de ser livre, passa a ser reflexo do outro. E ninguém se torna verdadeiramente livre quando passa a viver condicionado pela dor que recebeu.
Há ainda um outro ponto, muitas vezes esquecido: quando escolhemos não ser iguais a quem nos agride, estamos a interromper um ciclo. Estamos a impedir que a violência se reproduza. Estamos a recusar que a dor que recebemos continue a ser passada adiante. Isso é uma forma silenciosa de resistência e, ao mesmo tempo, de construção de humanidade.
Nem sempre é fácil. Especialmente quando a ferida vem de perto, da família, da Igreja, de lugares onde se esperava cuidado e não conflito. Mas talvez seja exatamente nesses lugares que esta escolha ganha mais valor. Porque é aí que a tentação de retribuir é maior — e é aí que a grandeza se torna mais visível.
No fundo, ser maior não é ter o poder de ferir. É ter a consciência de que esse poder existe… e ainda assim recusá-lo. É olhar para quem nos magoou e não permitir que essa pessoa determine o tipo de pessoa que nós nos tornamos.
Porque a verdadeira vitória não é vencer o outro. É não perder a nossa própria essência no caminho.
Cláudio Anaia
claudioanaia@hotmail.com
Lembra-nos que, mesmo depois das quedas e das dúvidas, o amor continua a ser um lugar possível para recomeçar.
Porque acreditar no amor é, no fundo, acreditarmos na vida que é possível sermos melhores, sermos felizes.
Não podes deixar de ouvir.
Goa não se visita apenas com os olhos. Sente-se com a memória, com a fé e com o coração.
Viajar é, muitas vezes,
atravessar geografias. Mas há viagens que são muito mais do que deslocações
físicas. São encontros inesperados com a memória, com a cultura e com pessoas
que acabam por dar alma aos lugares. A minha passagem por Goa tem sido exatamente
isso.
Chegar à Índia é mergulhar num
universo intenso de cores, aromas, espiritualidade e movimento constante. Um
país profundamente marcado pela tradição hindu, pelos templos, pelas buzinas
incessantes, pelos mercados cheios de vida e por uma energia humana difícil de
explicar por palavras.
Mas Goa é diferente.
Tem uma identidade própria. Um
ambiente onde o Oriente e o Ocidente parecem coexistir de forma natural, quase
silenciosa.
Ao caminhar por algumas ruas e
becos, há momentos estranhos e fascinantes para um português. Entre igrejas
antigas, fachadas coloniais e pequenos detalhes do quotidiano, surgem palavras
em português, apelidos familiares, referências católicas, imagens de santos e
histórias que atravessaram séculos. Em certos instantes, sente-se que a
história continua ali, discreta, mas viva.
Em Goa, Portugal não desapareceu.
Transformou-se em memória viva.
Um dos momentos mais marcantes
desta viagem foi a visita a Velha Goa, um lugar que impressiona profundamente.
Caminhar entre igrejas monumentais, ruínas carregadas de história e espaços de
forte espiritualidade é como atravessar séculos num só dia. Ali respira-se uma
herança religiosa e histórica imensa, onde a presença missionária de São
Francisco Xavier ainda ecoa na memória coletiva e na dimensão espiritual do
lugar.
Há ali uma grandeza silenciosa,
uma espécie de solenidade que não precisa de explicação. Saí de lá com uma
sensação difícil de descrever: a de ter tocado numa parte viva da História.
No passado Domingo, vivi também
um momento particularmente especial e inesperado: assistir a uma missa
celebrada em português, em Goa. Num território tão distante de Portugal, ouvir
novamente a língua portuguesa dentro de uma igreja, acompanhada pela liturgia
católica, teve para mim um significado profundamente emotivo.
Foi impossível não sentir uma
ligação intensa entre passado e presente, entre culturas e memórias que
continuam vivas deste lado do mundo. Mais do que uma celebração religiosa, foi
um momento de encontro com a história, com a identidade e também comigo próprio.
Confesso que foi um daqueles
instantes simples, mas verdadeiramente inesquecíveis.
Tenho tido o privilégio de estar
hospedado numa antiga casa histórica do século XVI, um espaço carregado de
simbolismo e memória. Paredes antigas, ambientes silenciosos e a sensação
permanente de que cada corredor guarda histórias de outras épocas. Mais do que
um alojamento, é quase uma viagem dentro da própria alma goesa.
Mas aquilo que verdadeiramente
marca uma viagem são as pessoas.
Tenho sido acolhido com enorme
carinho por um grande amigo português que trabalha atualmente na Índia e pela
sua mãe, uma senhora goesa de quase 87 anos, que vive em Portugal. A sua
presença simboliza, de certa forma, essa ponte humana e cultural entre dois
países separados pela distância, mas unidos por séculos de ligação histórica.
Talvez seja isso que torna Goa
tão especial. Não é apenas um lugar turístico. É um território de encontros. Um
espaço onde diferentes culturas, religiões e identidades aprenderam, ao longo
do tempo, a coexistir.
Num país maioritariamente hindu,
encontrar comunidades católicas tão presentes, igrejas cheias de história e
sinais da presença portuguesa, desperta inevitavelmente reflexão. Não sobre
colonialismo ou nostalgia fácil, mas sobre aquilo que permanece nas pessoas,
nos hábitos, na fé e nas memórias coletivas.
Goa não é Portugal na Índia. Nem
é apenas Índia com influência portuguesa. Goa é algo único. Um lugar com
identidade própria, construída ao longo dos séculos entre o mar, a fé, as
especiarias, as diferenças culturais e os afetos humanos.
E percebo agora que há lugares
que não se deixam visitar. Deixam-se viver.
Goa não fica no mapa. Fica na
memória.
Cláudio Anaia
Há pessoas que se cruzam connosco na nossa vida que
não nos elevam; revelam apenas o peso que carregam dentro de si.
Vivemos tempos estranhos. Nunca se falou tanto de empatia,
respeito e inclusão e, ainda assim, nunca foi tão comum assistir à banalização
da agressividade nas palavras, à arrogância travestida de opinião e ao desprezo
silencioso pelos outros.
Há pessoas que caminham entre nós com uma estranha
necessidade de diminuir o próximo. Não constroem, destroem. Não elevam,
rebaixam. Não dialogam, impõem arrogância. E fazem-no com uma convicção quase
inabalável de que estão sempre certas, como se o mundo fosse um espelho onde
apenas a sua própria imagem merece existir.
Estas pessoas não vivem apenas nos extremos da sociedade.
Estão no trabalho, onde minam colegas em silêncio ou em público. Estão na
família, onde palavras duras deixam marcas que, por vezes, levam muito tempo a
sarar. Estão entre pseudoamigos, onde a competição substitui a lealdade. E, por
vezes, de forma ainda mais dolorosa, surgem também no seio da própria Igreja,
onde se esperaria acolhimento, mas onde, tantas vezes, se encontra julgamento.
Lembro-me, com tristeza profunda, de uma história da minha
infância. Um vizinho ensinava o filho a reagir com violência sempre que era
contrariado. Dizia-lhe que tinha de mostrar força, que tinha de provar que era
“homem”. Aquilo que, na altura, me parecia apenas estranho, hoje faz-me
perceber muito mais: a violência não começa na idade adulta. Aprende-se.
Cultiva-se. Normaliza-se.
E talvez alguns desses adultos que hoje ferem com palavras,
que humilham, que esmagam os outros com a sua arrogância, sejam, afinal, o
reflexo dessas aprendizagens distorcidas.
Desde criança, muitas vezes fui criticado por ser diferente.
Por ser sensível. Por estar próximo das pessoas. Por tentar ser amigo até
daqueles que, claramente, não gostavam de mim. Diziam-me que era parvo, ingénuo
e tinha falta de firmeza.
Mas hoje sei: não era nada disso. Era uma escolha.
A escolha de não endurecer num mundo que empurra para a
frieza. A escolha de não retribuir com a mesma moeda. A escolha de acreditar
que a proximidade humana vale mais do que qualquer jogo de poder ou vaidade.
Estive muitos anos na política. Acreditei, e continuo a acreditar, que é um espaço nobre, onde o mais importante
deveria ser servir. Mas afastei-me. Não por desistir das pessoas, mas por, em
muitos casos, não me rever naquele ambiente.
Porque, demasiadas vezes, encontrei um espaço mal
frequentado, não pelas instituições, mas
por atitudes. Uma realidade onde o interesse pessoal se sobrepõe ao bem comum,
onde alguns pensam primeiro em si e nos seus e só depois, se sobrar tempo, nos
outros.
Assisto a debates televisivos onde o objetivo deixou de ser
trocar ideias e passou a ser impor vozes. Onde se grita mais do que se escuta.
Onde, por momentos, a política perde a sua dignidade e se transforma num ruído
constante.
E é aqui que tudo se cruza. Porque esta toxicidade não é
isolada, é transversal. Está na
política, como está na sociedade. Alimenta-se da mesma raiz: o ego desmedido, a
falta de empatia, a incapacidade de reconhecer valor no outro.
Vivemos, por isso, muitas vezes numa sociedade de pedra. Uma
sociedade onde o outro deixou de ser visto como pessoa e passou a ser tratado
como obstáculo, concorrente ou irrelevante. Onde a sensibilidade é confundida
com fraqueza e a empatia com ingenuidade.
Mas a pedra não sente. E talvez seja esse o maior perigo:
tornarmo-nos todos um pouco mais duros, mais frios, mais indiferentes, como
forma de sobrevivência.
Mas não tem de ser assim.
Talvez o verdadeiro ato de coragem, hoje, seja outro:
continuar a sentir. Continuar a respeitar. Continuar a acreditar que é possível
discordar sem destruir, afirmar sem humilhar, viver sem querer esmagar o outro.
Porque, no fim, as pessoas tóxicas não se medem pelo barulho
que fazem, mas pelo vazio que deixam.
E uma sociedade que aceita isso como normal corre o risco de
perder aquilo que a torna verdadeiramente humana.
Talvez a mudança comece em cada um: na forma como se escolhe
viver, falar e tratar quem se cruza no caminho. Não é possível controlar os
outros, mas é possível recusar alimentar a dureza, a indiferença e a
agressividade que tantas vezes dominam o quotidiano. Fazer diferente, hoje, é
um acto de consciência e de coragem , é escolher não ser mais uma pedra, mas
parte da construção de uma sociedade mais humana, mais próxima e mais
verdadeira.
Cláudio Anaia
Quando me pediram para refletir sobre as razões para ser católico, a primeira questão que coloquei a mim próprio foi esta: antes de ser católico, sou verdadeiramente cristão?
Esta distinção é importante, porque muitas vezes se confunde a Igreja enquanto Corpo de Cristo com a sua dimensão institucional e hierárquica. Ao longo da história, alguns dos seus membros não souberam transmitir fielmente os ensinamentos de Cristo, deixando-se influenciar por interesses políticos ou pessoais. Essa realidade contribuiu para o afastamento de muitos.
Vivemos numa sociedade marcada pela pressa e pelo imediatismo. Muitas vezes, rezamos apenas quando precisamos, de forma automática e pouco consciente. Falhamos frequentemente em viver a nossa fé no quotidiano: ignoramos quem precisa de ajuda ao nosso lado, enquanto gastamos em coisas supérfluas aquilo que poderia aliviar o sofrimento de outros. Estes comportamentos ajudam a explicar por que tantos deixaram de acreditar na Igreja.
Recordo um episódio marcante da minha vida profissional. Um doente, figura relevante do país, disse-me: “Não sou católico, sou humanista.” Respondi-lhe que, se era verdadeiramente humanista, então, de algum modo, era também crente em Deus, pois Deus manifesta-se no homem. Ele hesitou. Percebi que associava a Igreja a figuras históricas e contextos políticos com os quais discordava, confundindo a instituição com a essência da fé.
Expliquei-lhe que a verdadeira Igreja é a humanidade, da qual todos fazemos parte, tendo Cristo como cabeça. Falei-lhe também do papel do Papa, sublinhando que a fé não implica obediência cega, mas uma adesão consciente e racional, porque a fé não se opõe à razão, antes a ilumina.
No final, disse-me: “Se me tivessem falado assim, talvez a minha relação com Deus tivesse sido diferente.” Respondi-lhe que Deus não é apenas dos crentes, mas de todos.
É com profundo respeito por todas as confissões cristãs, e reconhecendo as fragilidades da Igreja Católica, que agradeço a Deus ser cristão católico. Agradeço pelos tesouros espirituais que nela encontrei.
A Igreja nasceu quando Pedro reconhece em Jesus o Filho de Deus, e Cristo diz lhe: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja.” Durante os primeiros mil anos, “católico” era praticamente sinónimo de “cristão”. Só mais tarde, com o Grande Cisma, se deu a separação entre Igreja Ocidental/Católica e Oriental/Ortodoxa.
“Católico” significa “universal”. Esta universalidade implica uma visão aberta da humanidade, sem espaço para racismo ou exclusão. Ser católico é, para mim, acreditar que cada pessoa pode contribuir para a transformação da sociedade, tornando-a mais justa e mais humana.
A preocupação com os mais pobres e vulneráveis está no centro desta visão. Deus deseja que todos alcancem a plenitude como seres humanos. Ser católico é estar ao lado dos que lutam por justiça, contra as desigualdades e discriminações, promovendo condições para que cada pessoa se realize plenamente.
Ser católico é também reconhecer Deus no mundo, nas mais diferentes áreas como no trabalho, na cultura, na ciência, nas relações humanas, na família e até nos momentos de lazer. Não há separação entre vida espiritual e vida quotidiana, as duas são caminho de encontro com Deus.
Na minha vida, particularmente como médico, encontro um dos maiores mistérios. Nasci numa pequena aldeia, sem condições básicas, e desde muito cedo senti o desejo de ser médico. Nunca encontrei uma explicação puramente racional para isso. Vejo-o como uma graça, um dom gratuito que deu sentido à minha vida.
Ser médico, para mim, nunca foi apenas uma profissão técnica. Sempre senti que não podia separar a doença da pessoa que sofre. Muitas vezes, os problemas mais profundos dos doentes não são físicos, mas da alma. A verdadeira medicina exige proximidade, empatia e humanidade.
Dou graças a Deus por poder servir através da minha profissão. Mesmo quando me afasto, sei que Ele permanece presente, pronto a acolher-me. Essa é, para mim, a maior prova de amor.
Também eu experimentei a fragilidade da doença. Passei por situações graves que me fizeram compreender melhor quem sofre. Essas experiências reforçaram a minha convicção de que o doente procura mais do que competência técnica. Procura confiança, compreensão e esperança.
Quantas vezes, ao ajudar alguém, sinto que não sou eu o autor da cura, mas apenas instrumento. Como costumo dizer aos meus doentes: “Foi Deus que me deu os meios para o tratar.”
A fé ensina-me que o livre-arbítrio é sagrado. Deus não se impõe, Ele convida. Cabe a cada um escolher o caminho do bem e do amor.
Na Páscoa, celebramos o mistério central da fé cristã: o amor levado até ao extremo. Cristo entrega-se livremente, revelando que o amor vence a morte, que a luz supera as trevas.
Vivemos tempos difíceis, não apenas economicamente, mas sobretudo ao nível dos valores. A ética e a moral parecem, por vezes, desvalorizadas. Mas o cristão não pode aceitar que o fim justifique todos os meios. É chamado a testemunhar que o bem deve prevalecer.
Ser católico não é um conjunto de práticas isoladas. É uma forma de viver e amar sem condições. É dizer “sim” , a Deus, ao outro, e à vida.
E essa continua a ser, para mim, a mais bela razão para ser católico..
Fernando Ramalho
Médico; Professor da Faculdade de Medicina de Lisboa