"O trabalho do artista tem de ser livre,
porque os artistas são 'habitados', nem que seja por uma visão 'pessoalíssima'
e Artur Bual transmitiu uma visão 'pessoalíssima' sobre Jesus. Na sua
liberdade, os artistas transmitem visões novas, ajudam a desconstruir
lugares-comuns".
Cardeal José Tolentino de Mendonça
No passado sábado tive a alegria e a satisfação de
visitar, na Amadora, duas exposições integradas nas comemorações do centenário
do nascimento de Artur Bual: “O Amor é Redondo”, na Galeria Municipal
Artur Bual, e “Outras Fronteiras”, nos Paços do Concelho da Câmara
Municipal da Amadora.
Foi uma visita que teve para mim um significado
especial, não apenas pelas obras que pude contemplar, mas também pela forma
como as exposições nos foram apresentadas. Tive o privilégio de ser acompanhado
por Joaquim Franco, comissário das exposições comemorativas do centenário de
Artur Bual, e por Maria João Bual, filha do artista. Ouvir um grande conhecedor da obra de Bual e, ao mesmo tempo, escutar a
filha falar do pai, acrescentou uma dimensão humana à visita que dificilmente
uma simples observação das obras poderia proporcionar.
Gosto da pintura de Artur Bual precisamente porque ela
não parece querer pedir licença. Há nela irreverência, liberdade, força e uma
extraordinária capacidade de misturar cores, formas e sentimentos. É uma
pintura que não se limita a ser observada. Interpela-nos, fazendo-nos parar e reflectir.
E é nos seus Cristos que essa dimensão mais me
toca.
Não vejo apenas figuras de Cristo pintadas sobre uma
tela. Vejo sofrimento, humanidade, silêncio, esperança e, sobretudo, uma
procura de transcendência. As cores, por vezes violentas, quase parecem
carregar consigo a dor humana, mas também uma possibilidade de redenção.
O que mais me fascina é a capacidade de Bual partir da
matéria, da cor e do gesto para nos conduzir para algo que está para além da
própria pintura.
É impossível olhar para aqueles Cristos apenas como
obras de arte. Há qualquer coisa neles que me interpela de uma forma diferente.
Talvez porque o Cristo que Bual nos apresenta não seja um Cristo distante,
perfeito e intocável. É um Cristo que parece carregar consigo as marcas da
condição humana, a dor, a fragilidade e o sofrimento, mas que, precisamente por
isso, aponta para uma realidade que não termina na cruz.
Há sofrimento, mas há também transcendência. Há morte,
mas permanece a esperança.
E talvez uma das grandes forças da arte seja conseguir
dizer aquilo que muitas vezes as palavras não conseguem explicar.
A visita às duas exposições deixou-me também com uma
enorme admiração pelo trabalho que está a ser desenvolvido para preservar e
divulgar a memória de Artur Bual. Celebrar cem anos do nascimento de um artista
não é apenas olhar para o passado, é permitir que a sua obra continue a
dialogar com o presente e, sobretudo, com as novas gerações.
Saí da Amadora com a sensação de ter encontrado não
apenas um grande pintor, mas um artista que continua a provocar, a inquietar e
a interrogar quem olha para a sua obra. E isso, para mim, é um dos maiores sinais
de que uma obra permanece viva.
Artur Bual pintou com as mãos, com a cor e com a
irreverência. Mas, em muitos dos seus Cristos, sinto que tentou pintar também
aquilo que não se vê: a dor, a esperança, a fé e esse mistério maior a que
chamamos transcendência.
Foi uma visita que me deu alegria e satisfação, pelas
obras, pelo encontro, pela memória de Bual e pela possibilidade de, através da
sua pintura, continuar a procurar aquilo que está para além do que os nossos
olhos conseguem alcançar.
Cláudio Anaia
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