Goa não se visita apenas com os olhos. Sente-se com a memória, com a fé e com o coração.
Viajar é, muitas vezes,
atravessar geografias. Mas há viagens que são muito mais do que deslocações
físicas. São encontros inesperados com a memória, com a cultura e com pessoas
que acabam por dar alma aos lugares. A minha passagem por Goa tem sido exatamente
isso.
Chegar à Índia é mergulhar num
universo intenso de cores, aromas, espiritualidade e movimento constante. Um
país profundamente marcado pela tradição hindu, pelos templos, pelas buzinas
incessantes, pelos mercados cheios de vida e por uma energia humana difícil de
explicar por palavras.
Mas Goa é diferente.
Tem uma identidade própria. Um
ambiente onde o Oriente e o Ocidente parecem coexistir de forma natural, quase
silenciosa.
Ao caminhar por algumas ruas e
becos, há momentos estranhos e fascinantes para um português. Entre igrejas
antigas, fachadas coloniais e pequenos detalhes do quotidiano, surgem palavras
em português, apelidos familiares, referências católicas, imagens de santos e
histórias que atravessaram séculos. Em certos instantes, sente-se que a
história continua ali, discreta, mas viva.
Em Goa, Portugal não desapareceu.
Transformou-se em memória viva.
Um dos momentos mais marcantes
desta viagem foi a visita a Velha Goa, um lugar que impressiona profundamente.
Caminhar entre igrejas monumentais, ruínas carregadas de história e espaços de
forte espiritualidade é como atravessar séculos num só dia. Ali respira-se uma
herança religiosa e histórica imensa, onde a presença missionária de São
Francisco Xavier ainda ecoa na memória coletiva e na dimensão espiritual do
lugar.
Há ali uma grandeza silenciosa,
uma espécie de solenidade que não precisa de explicação. Saí de lá com uma
sensação difícil de descrever: a de ter tocado numa parte viva da História.
No passado Domingo, vivi também
um momento particularmente especial e inesperado: assistir a uma missa
celebrada em português, em Goa. Num território tão distante de Portugal, ouvir
novamente a língua portuguesa dentro de uma igreja, acompanhada pela liturgia
católica, teve para mim um significado profundamente emotivo.
Foi impossível não sentir uma
ligação intensa entre passado e presente, entre culturas e memórias que
continuam vivas deste lado do mundo. Mais do que uma celebração religiosa, foi
um momento de encontro com a história, com a identidade e também comigo próprio.
Confesso que foi um daqueles
instantes simples, mas verdadeiramente inesquecíveis.
Tenho tido o privilégio de estar
hospedado numa antiga casa histórica do século XVI, um espaço carregado de
simbolismo e memória. Paredes antigas, ambientes silenciosos e a sensação
permanente de que cada corredor guarda histórias de outras épocas. Mais do que
um alojamento, é quase uma viagem dentro da própria alma goesa.
Mas aquilo que verdadeiramente
marca uma viagem são as pessoas.
Tenho sido acolhido com enorme
carinho por um grande amigo português que trabalha atualmente na Índia e pela
sua mãe, uma senhora goesa de quase 87 anos, que vive em Portugal. A sua
presença simboliza, de certa forma, essa ponte humana e cultural entre dois
países separados pela distância, mas unidos por séculos de ligação histórica.
Talvez seja isso que torna Goa
tão especial. Não é apenas um lugar turístico. É um território de encontros. Um
espaço onde diferentes culturas, religiões e identidades aprenderam, ao longo
do tempo, a coexistir.
Num país maioritariamente hindu,
encontrar comunidades católicas tão presentes, igrejas cheias de história e
sinais da presença portuguesa, desperta inevitavelmente reflexão. Não sobre
colonialismo ou nostalgia fácil, mas sobre aquilo que permanece nas pessoas,
nos hábitos, na fé e nas memórias coletivas.
Goa não é Portugal na Índia. Nem
é apenas Índia com influência portuguesa. Goa é algo único. Um lugar com
identidade própria, construída ao longo dos séculos entre o mar, a fé, as
especiarias, as diferenças culturais e os afetos humanos.
E percebo agora que há lugares
que não se deixam visitar. Deixam-se viver.
Goa não fica no mapa. Fica na
memória.
Cláudio Anaia


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