sexta-feira, fevereiro 27, 2026

O teu Fado é seres feliz


Ontem , fui a Bolsa de Turismo de Lisboa.

Foram dez horas intensas na BTL . Rostos, sotaques, culturas, destinos, promessas de viagem e sonhos por cumprir. No meio da azáfama própria de um evento desta dimensão, houve um momento que suspendeu o ruído. A voz da Cuca Roseta encheu o espaço e, de repente, já não estávamos apenas numa feira de turismo. Estávamos diante de nós próprios.

A canção dizia: “O teu fado é ser feliz.”

Num país onde tantas vezes usamos a palavra “fado” como sinónimo de destino pesado, inevitável, quase trágico, esta frase soa a ruptura. Estamos habituados a um fado que se lamenta, que se resigna, que aceita. Mas esta letra faz exatamente o contrário: devolve-nos a responsabilidade.

“Só tu decides quando choras ou ris.”

Que afirmação poderosa. Não nega a tristeza. Não a ridiculariza. Pelo contrário — reconhece que a alegria e a tristeza coexistem. A letra chega mesmo a dizer que uma não vive sem a outra. Há noite e dia. Há queda e recomeço. Há pôr do sol e há madrugada.

Mas no meio desse ciclo inevitável, existe algo que depende exclusivamente de nós: a escolha.
Vivemos numa sociedade onde é mais fácil apontar o dedo do que olhar para dentro. A culpa é do Governo, da oposição, do sistema, da economia, da sorte, da infância, do contexto. E muitas vezes é mesmo. Não sejamos ingénuos. Mas há uma dimensão da vida que escapa a qualquer condicionamento externo: a forma como decidimos responder ao que nos acontece.

“O teu fado é ser feliz” não é uma frase ingénua nem uma daquelas mensagens motivacionais vazias. É um convite exigente. Obriga-nos a assumir que não somos apenas vítimas das circunstâncias. Somos também autores da nossa postura.

A canção lembra-nos que cair faz parte. “Caindo vais-te erguer.” Não promete uma vida sem dor. Promete dignidade na forma como nos levantamos.

Talvez por isso a música me tenha ficado na cabeça. Não pela melodia apenas, mas pela mensagem. Num tempo de tanta queixa pública e de tanta desistência privada, ouvir alguém cantar que o destino não é uma condenação mas uma escolha é quase um ato revolucionário.
Quantas vezes cantamos refrões sem escutar verdadeiramente as palavras? Quantas vezes repetimos “é o meu fado” como desculpa para a inércia?
E se não for?
E se o nosso fado não for sofrer, mas decidir?
E se o nosso destino não estiver escrito na fatalidade, mas na coragem quotidiana de escolher como reagimos?

Naquela tarde, no meio de um evento dedicado a mostrar o mundo  , percebi que a maior viagem continua a ser interior.

O teu fado é ser feliz.
E ninguém pode vivê-lo por ti.

Cláudio Anaia