“O espetáculo da degradação serve-se em horário nobre
e ninguém parece ligar.”
Durante décadas, a televisão foi pensada como um espaço de
cultura, informação e serviço público. Hoje, em grande parte dos casos,
transformou-se num palco onde se exploram emoções primárias, conflitos
artificiais e a exposição crua da vida humana como entretenimento. Concursos
vazios e reality shows dominam a grelha, compondo aquilo a que já se pode
chamar, sem pudor, telelixo , amplamente consumido e socialmente tolerado.
É verdade que existem exceções. Canais dedicados à história,
à ciência ou à natureza continuam a cumprir uma função pedagógica e cultural
relevante. Mas a crítica não se dirige a esses espaços. O problema está na
exploração organizada da fragilidade humana, feita com métodos calculados,
edição manipulada e um único objetivo: audiências e lucro.
Um ponto adicional que merece destaque é a chamada tudologia
enviesada. Esta expressão refere-se àquelas pessoas que opinam sobre tudo, mas
de forma parcial, distorcendo resultados devido a preconceitos, juízos de valor
ou amostras não representativas. A falta de imparcialidade e a tendência a
favorecer um ponto de vista específico acabam por comprometer a qualidade da
informação e a promover a desinformação. É um fenómeno particularmente
preocupante na televisão, onde essa superficialidade é amplificada e contribui
para a degradação do conteúdo.
Em Portugal, este empobrecimento do conteúdo televisivo é
agravado pela obsessão nacional com o futebol. Vários canais dedicam horas
intermináveis à análise, comentário e polémica futebolística, muitas vezes em
horário nobre, relegando para segundo plano outras modalidades desportivas,
temas culturais, científicos ou sociais de real interesse público. Cria-se,
assim, uma alienação coletiva, como se o país girasse quase exclusivamente em
torno da bola.
A isto junta-se a repetição constante de notícias sobre
violência, crime e tragédia, frequentemente apresentadas de forma
sensacionalista. Este bombardeamento diário tem consequências reais na saúde
mental dos espectadores, alimentando o stress, a ansiedade e uma perceção
distorcida da realidade. Ao mesmo tempo, o consumo excessivo de televisão
promove o sedentarismo, contribuindo para estilos de vida cada vez mais
passivos e letárgicos.
No plano do reconhecimento social, a televisão ajuda a
consolidar uma hierarquia de valores profundamente questionável. Futebolistas e
políticos ocupam o centro do palco mediático, enquanto profissionais como
médicos, enfermeiros, professores ou bombeiros — que salvam vidas, educam
gerações e sustentam a sociedade — permanecem praticamente invisíveis. Esta
disparidade diz muito sobre o tipo de valores que estamos a normalizar.
Mais do que denunciar o problema, importa também apontar
caminhos. A televisão tem capacidade — e responsabilidade — para ser um agente
ativo de transformação social. Pode promover cultura, estimular o pensamento
crítico, valorizar o conhecimento, dar visibilidade ao voluntariado, às
associações que trabalham no terreno e às pessoas anónimas que diariamente
fazem a diferença nas comunidades. Pode inspirar, educar e mobilizar para
causas positivas, em vez de explorar conflitos, vaidades e misérias humanas. Não
se trata de eliminar o entretenimento, mas de lhe devolver dignidade e sentido.
Quando a televisão escolhe elevar em vez de degradar, contribui para uma
sociedade mais consciente, solidária e humanamente mais rica.
Apesar de existir consciência ética sobre esta degradação, a
exploração continua. A razão é simples: há consumo, há audiências e há lucro.
Os canais beneficiam, os anunciantes investem e o Estado, na maioria das vezes,
mantém-se passivo, permitindo que a lógica comercial se sobreponha ao interesse
público.
No fim, a pergunta impõe-se: que sociedade estamos a
construir quando aceitamos, sem resistência, que a mediocridade, o voyeurismo e
o ruído ocupem o lugar da reflexão, da cultura e da dignidade humana? A
televisão não é apenas um espelho da sociedade — é também um instrumento
poderoso de formação, ou deformação, de consciências. E disso, quer queiramos
quer não, somos todos responsáveis.
Cláudio Anaia
