quarta-feira, janeiro 28, 2026

TELELIXO

 

“O espetáculo da degradação serve-se em horário nobre e ninguém parece ligar.”

Durante décadas, a televisão foi pensada como um espaço de cultura, informação e serviço público. Hoje, em grande parte dos casos, transformou-se num palco onde se exploram emoções primárias, conflitos artificiais e a exposição crua da vida humana como entretenimento. Concursos vazios e reality shows dominam a grelha, compondo aquilo a que já se pode chamar, sem pudor, telelixo ,  amplamente consumido e socialmente tolerado.

É verdade que existem exceções. Canais dedicados à história, à ciência ou à natureza continuam a cumprir uma função pedagógica e cultural relevante. Mas a crítica não se dirige a esses espaços. O problema está na exploração organizada da fragilidade humana, feita com métodos calculados, edição manipulada e um único objetivo: audiências e lucro.

Um ponto adicional que merece destaque é a chamada tudologia enviesada. Esta expressão refere-se àquelas pessoas que opinam sobre tudo, mas de forma parcial, distorcendo resultados devido a preconceitos, juízos de valor ou amostras não representativas. A falta de imparcialidade e a tendência a favorecer um ponto de vista específico acabam por comprometer a qualidade da informação e a promover a desinformação. É um fenómeno particularmente preocupante na televisão, onde essa superficialidade é amplificada e contribui para a degradação do conteúdo.

Em Portugal, este empobrecimento do conteúdo televisivo é agravado pela obsessão nacional com o futebol. Vários canais dedicam horas intermináveis à análise, comentário e polémica futebolística, muitas vezes em horário nobre, relegando para segundo plano outras modalidades desportivas, temas culturais, científicos ou sociais de real interesse público. Cria-se, assim, uma alienação coletiva, como se o país girasse quase exclusivamente em torno da bola.

A isto junta-se a repetição constante de notícias sobre violência, crime e tragédia, frequentemente apresentadas de forma sensacionalista. Este bombardeamento diário tem consequências reais na saúde mental dos espectadores, alimentando o stress, a ansiedade e uma perceção distorcida da realidade. Ao mesmo tempo, o consumo excessivo de televisão promove o sedentarismo, contribuindo para estilos de vida cada vez mais passivos e letárgicos.

No plano do reconhecimento social, a televisão ajuda a consolidar uma hierarquia de valores profundamente questionável. Futebolistas e políticos ocupam o centro do palco mediático, enquanto profissionais como médicos, enfermeiros, professores ou bombeiros — que salvam vidas, educam gerações e sustentam a sociedade — permanecem praticamente invisíveis. Esta disparidade diz muito sobre o tipo de valores que estamos a normalizar.

Mais do que denunciar o problema, importa também apontar caminhos. A televisão tem capacidade — e responsabilidade — para ser um agente ativo de transformação social. Pode promover cultura, estimular o pensamento crítico, valorizar o conhecimento, dar visibilidade ao voluntariado, às associações que trabalham no terreno e às pessoas anónimas que diariamente fazem a diferença nas comunidades. Pode inspirar, educar e mobilizar para causas positivas, em vez de explorar conflitos, vaidades e misérias humanas. Não se trata de eliminar o entretenimento, mas de lhe devolver dignidade e sentido. Quando a televisão escolhe elevar em vez de degradar, contribui para uma sociedade mais consciente, solidária e humanamente mais rica.

Apesar de existir consciência ética sobre esta degradação, a exploração continua. A razão é simples: há consumo, há audiências e há lucro. Os canais beneficiam, os anunciantes investem e o Estado, na maioria das vezes, mantém-se passivo, permitindo que a lógica comercial se sobreponha ao interesse público.

No fim, a pergunta impõe-se: que sociedade estamos a construir quando aceitamos, sem resistência, que a mediocridade, o voyeurismo e o ruído ocupem o lugar da reflexão, da cultura e da dignidade humana? A televisão não é apenas um espelho da sociedade — é também um instrumento poderoso de formação, ou deformação, de consciências. E disso, quer queiramos quer não, somos todos responsáveis.

Cláudio Anaia