A sátira e o humor sempre tiveram como função social testar os limites do aceitável, provocar o pensamento e desafiar as convenções. No entanto, a linha que separa a provocação inteligente da ofensa gratuita é ténue, e o recente sketch “Corpo de Cristo”, protagonizado por Bruno Nogueira na segunda temporada de Ruído na RTP , cruzou-a de forma desnecessária.
É-me impossível achar graça ao scketch que junta um padre pedófilo e Jesus Cristo na cruz. Fico completamente sem reação ao ver o sacerdote a usar a hóstia num ritual sexual.
Ao parodiar o momento da sagrada comunhão através de uma abordagem que cruza a erotização com o sagrado, o humorista não fez uma crítica social ou política legítima; assinou, antes, uma provocação infantil desenhada especificamente para chocar e ferir a sensibilidade de milhões de crentes. O que se vê no ecrã não convida à reflexão, mas sim ao desconforto perante o vilipêndio de símbolos de devoção que merecem, no mínimo, a dignidade do respeito humano.
Para compreender a gravidade do gesto, é preciso olhar para
além do pedaço de pão que ali serve de adereço cómico. A Eucaristia não é um
símbolo ou uma metáfora para quem tem fé; é o próprio núcleo da vivência
espiritual cristã, a representação viva da transcendência, do sacrifício e do
amor divino. Reduzir esse momento de profunda intimidade espiritual a uma piada
de cariz sexualizado não revela audácia artística, revela uma profunda falta de empatia e um
desrespeito pela alteridade.
O argumento de que "no humor vale tudo" ou de que
a liberdade de expressão legitima qualquer linchamento estético e moral esbarra
no bom senso. Uma sociedade verdadeiramente plural e inclusiva não se constrói
espezinhando aquilo que os outros têm de mais sagrado. Bruno Nogueira, cuja
inteligência em alguns projetos, provaram que ele sabe fazer humor com temas
difíceis e dolorosos sem perder a humanidade, parece ter optado aqui pelo
caminho mais fácil e rasteiro: o do escândalo pelo escândalo.
Mais problemática ainda foi a sua reação posterior à
polémica. Ao tentar sacudir a água do capote, acusando os críticos de
canalizarem "mais energia" contra o seu sketch do que contra os
graves escândalos de abusos sexuais na Igreja, o humorista recorreu a uma
falácia argumentativa pobre. O combate aos crimes hediondos no seio da
instituição e o respeito pelos símbolos sagrados de uma comunidade não são
realidades mutuamente exclusivas. Usar a dor das vítimas de abusos como um
escudo retórico para justificar uma má opção artística é uma manobra de
diversão intelectualmente desonesta.
O humor deve ser livre para criticar o poder, os dogmas e as
instituições. Mas quando abdica da inteligência para se focar no escárnio puro
e na humilhação da fé alheia, deixa de ser arte e passa a ser apenas ruído, um
ruído estéril, arrogante e incapaz de gerar qualquer reflexão que não seja a da
discórdia.
Cláudio Anaia