quinta-feira, outubro 15, 2026

O ruido do Bruno Nogueira

A sátira e o humor sempre tiveram como função social testar os limites do aceitável, provocar o pensamento e desafiar as convenções. No entanto, a linha que separa a provocação inteligente da ofensa gratuita é ténue, e o recente sketch “Corpo de Cristo”, protagonizado por Bruno Nogueira na segunda temporada de Ruído na RTP , cruzou-a de forma desnecessária.

É-me impossível achar graça ao scketch que junta um padre pedófilo e Jesus Cristo na cruz. Fico completamente sem reação ao ver o sacerdote a usar a hóstia num ritual  sexual.

Ao parodiar o momento da sagrada comunhão através de uma abordagem que cruza a erotização com o sagrado, o humorista não fez uma crítica social ou política legítima; assinou, antes, uma provocação infantil  desenhada especificamente para chocar e ferir a sensibilidade de milhões de crentes. O que se vê no ecrã não convida à reflexão, mas sim ao desconforto perante o vilipêndio de símbolos de devoção que merecem, no mínimo, a dignidade do respeito humano.

Para compreender a gravidade do gesto, é preciso olhar para além do pedaço de pão que ali serve de adereço cómico. A Eucaristia não é um símbolo ou uma metáfora para quem tem fé; é o próprio núcleo da vivência espiritual cristã, a representação viva da transcendência, do sacrifício e do amor divino. Reduzir esse momento de profunda intimidade espiritual a uma piada de cariz sexualizado não revela audácia artística,  revela uma profunda falta de empatia e um desrespeito pela alteridade.

O argumento de que "no humor vale tudo" ou de que a liberdade de expressão legitima qualquer linchamento estético e moral esbarra no bom senso. Uma sociedade verdadeiramente plural e inclusiva não se constrói espezinhando aquilo que os outros têm de mais sagrado. Bruno Nogueira, cuja inteligência  em  alguns projetos,   provaram que ele sabe fazer humor com temas difíceis e dolorosos sem perder a humanidade, parece ter optado aqui pelo caminho mais fácil e rasteiro: o do escândalo pelo escândalo.

Mais problemática ainda foi a sua reação posterior à polémica. Ao tentar sacudir a água do capote, acusando os críticos de canalizarem "mais energia" contra o seu sketch do que contra os graves escândalos de abusos sexuais na Igreja, o humorista recorreu a uma falácia argumentativa pobre. O combate aos crimes hediondos no seio da instituição e o respeito pelos símbolos sagrados de uma comunidade não são realidades mutuamente exclusivas. Usar a dor das vítimas de abusos como um escudo retórico para justificar uma má opção artística é uma manobra de diversão intelectualmente desonesta.

O humor deve ser livre para criticar o poder, os dogmas e as instituições. Mas quando abdica da inteligência para se focar no escárnio puro e na humilhação da fé alheia, deixa de ser arte e passa a ser apenas ruído, um ruído estéril, arrogante e incapaz de gerar qualquer reflexão que não seja a da discórdia.

Cláudio Anaia