Vivemos rodeados de vozes, imagens,
notificações, encontros marcados e agendas cheias. Vivemos ligados, mas já não estamos
juntos. A solidão tornou-se o grande silêncio escondido da nossa época. Atravessa
profissões, estados de vida e até vocações. É talvez o drama mais universal do
nosso tempo. Estamos rodeados de estímulos, altamente conectados, mas não estamos
em comunhão.
Há solidão nos idosos que passam horas
diante de uma televisão que não lhes responde. Apenas lhes mata o silêncio. Há
solidão nos jovens que passam noites inteiras a deslizar o ecrã, à procura de
algo que julgam não ter e, que, tantas vezes não sabem nomear. Há solidão nos
pais que carregam o peso de uma casa cheia, mas de um coração vazio. Há solidão
nos padres que servem comunidades inteiras, mas que muitas vezes regressam ao
quarto com o eco de um silêncio que ninguém imagina.
E há, ainda, a solidão daqueles que
parecem ter tudo: amigos, trabalho, vida
social, viagens, fotografias felizes. Mas falta-lhes o essencial, uma vida
interior, um lugar onde possam habitar consigo mesmos e com Deus, sentindo-se
simplesmente acolhidos, sem máscaras. Sem esse espaço, a alma fica como uma
casa habitada, mas escura.
Jesus diz no Evangelho: “Vinde a mim,
todos os que estais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei.” Talvez a
maior opressão do nosso tempo seja esta incapacidade de parar, de escutar, de
sentir, de existir sem distrações. A empatia não responde à solidão do vizinho,
e não nasce apenas da falta de pessoas, nasce da falta de tempo, que não
queremos dispor, da falta de sentido, da falta de silêncio verdadeiro, da falta
e da presença de Deus.
Vivemos numa sociedade que nos ensinou a
fugir de nós próprios. Quando o coração começa a falar abrimos o telemóvel e
escondemo-nos atrás dum ecrã, onde somos heróis. Quando a alma pede descanso, ligamos mais um
episódio. Quando o vazio aparece, procuramos barulho. E assim, sem perceber,
vamos ficando cada vez mais sós.
A solidão não é apenas ausência de
companhia. É ausência de encontro.
E o encontro começa dentro de cada um,
quando finalmente paramos, quando deixamos cair as máscaras, quando aceitamos
olhar para o que somos e para o que falta. É aí que Deus entra, não com ruído,
mas como presença. Não como distração, mas como verdade. Não como mais uma
ligação, mas como a única relação que nunca falha.
Talvez seja tempo de reaprender a estar
connosco. De reaprender a estar com os outros. De reaprender a estar com Deus.
Num mundo que corre, o maior desafio é parar. Num mundo que grita, a maior coragem
é escutar. Num mundo que se isola, a maior missão é acompanhar.
A solidão não se vence com mais
movimento, mas com mais profundidade. E a fé continua a ser o lugar onde muitos
descobrem que nunca estiveram verdadeiramente sós.
Porque, no fim, a pergunta não é Quem
está comigo?, mas antes, com quem é que eu estou verdadeiramente disposto a
estar?
Inês Nunes
