terça-feira, setembro 08, 2026

Quando a solidão fala, Deus responde

 

Vivemos rodeados de vozes, imagens, notificações, encontros marcados e agendas cheias. Vivemos ligados, mas já não estamos juntos. A solidão tornou-se o grande silêncio escondido da nossa época. Atravessa profissões, estados de vida e até vocações. É talvez o drama mais universal do nosso tempo. Estamos rodeados de estímulos, altamente conectados, mas não estamos em comunhão.

Há solidão nos idosos que passam horas diante de uma televisão que não lhes responde. Apenas lhes mata o silêncio. Há solidão nos jovens que passam noites inteiras a deslizar o ecrã, à procura de algo que julgam não ter e, que, tantas vezes não sabem nomear. Há solidão nos pais que carregam o peso de uma casa cheia, mas de um coração vazio. Há solidão nos padres que servem comunidades inteiras, mas que muitas vezes regressam ao quarto com o eco de um silêncio que ninguém imagina.

E há, ainda, a solidão daqueles que parecem ter tudo:  amigos, trabalho, vida social, viagens, fotografias felizes. Mas falta-lhes o essencial, uma vida interior, um lugar onde possam habitar consigo mesmos e com Deus, sentindo-se simplesmente acolhidos, sem máscaras. Sem esse espaço, a alma fica como uma casa habitada, mas escura.

Jesus diz no Evangelho: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei.” Talvez a maior opressão do nosso tempo seja esta incapacidade de parar, de escutar, de sentir, de existir sem distrações. A empatia não responde à solidão do vizinho, e não nasce apenas da falta de pessoas, nasce da falta de tempo, que não queremos dispor, da falta de sentido, da falta de silêncio verdadeiro, da falta e da presença de Deus.

Vivemos numa sociedade que nos ensinou a fugir de nós próprios. Quando o coração começa a falar abrimos o telemóvel e escondemo-nos atrás dum ecrã, onde somos heróis.  Quando a alma pede descanso, ligamos mais um episódio. Quando o vazio aparece, procuramos barulho. E assim, sem perceber, vamos ficando cada vez mais sós.

A solidão não é apenas ausência de companhia. É ausência de encontro.

E o encontro começa dentro de cada um, quando finalmente paramos, quando deixamos cair as máscaras, quando aceitamos olhar para o que somos e para o que falta. É aí que Deus entra, não com ruído, mas como presença. Não como distração, mas como verdade. Não como mais uma ligação, mas como a única relação que nunca falha.

Talvez seja tempo de reaprender a estar connosco. De reaprender a estar com os outros. De reaprender a estar com Deus.

Num mundo que corre, o maior desafio  é parar. Num mundo que grita, a maior coragem é escutar. Num mundo que se isola, a maior missão é acompanhar.

A solidão não se vence com mais movimento, mas com mais profundidade. E a fé continua a ser o lugar onde muitos descobrem que nunca estiveram verdadeiramente sós.

Porque, no fim, a pergunta não é Quem está comigo?, mas antes, com quem é que eu estou verdadeiramente disposto a estar?

Inês Nunes