terça-feira, julho 14, 2026

Festival de Almada: Do Asfalto às Redes Sociais

 

Hoje, ser afetivo é cada vez mais um risco social. Num tempo em que um gesto pode ser descontextualizado e julgado em segundos, O Beijo no Asfalto recorda-nos que a compaixão continua a ser uma das maiores vítimas do preconceito, do sensacionalismo e da velocidade com que se condenam pessoas inocentes.

Ontem no Festival de Almada  tive a oportunidade de assistir a O Beijo no Asfalto, de Nelson Rodrigues, numa produção do Teatro Nacional São João, com encenação de Tónan Quito.

Saí da sala com a sensação de ter visto muito mais do que um espetáculo. Vi um espelho da sociedade contemporânea. É precisamente essa a grande força dos clássicos: continuam a falar connosco, mesmo quando foram escritos há mais de seis décadas.

Durante a representação, ocorreu-me várias vezes que Nelson Rodrigues parecia ter escrito esta obra para o mundo das redes sociais. Estreada em 1960, a sua mensagem encaixa de forma quase perfeita na realidade de 2026.

A história é simples. Um homem, mortalmente atropelado, faz um último pedido: um beijo. Arandir, movido apenas pela compaixão, satisfaz esse desejo. O que deveria ser recordado como um gesto profundamente humano transforma-se numa condenação pública. Os factos deixam de interessar. O preconceito, a insinuação e o sensacionalismo tomam conta da narrativa.

Nelson Rodrigues mostra como uma sociedade pode fabricar um culpado sem necessidade de provas. O jornalista Amado Ribeiro não procura a verdade; procura uma história que desperte emoções, venda jornais e alimente a curiosidade pública. A suspeita torna-se mais poderosa do que os factos.

Enquanto assistia ao espetáculo, não consegui deixar de pensar que, se Nelson Rodrigues escrevesse O Beijo no Asfalto hoje, Amado Ribeiro talvez não fosse jornalista. Seria um influenciador digital ou um criador de conteúdos com milhões de seguidores. O beijo seria gravado por um telemóvel, publicado em segundos e transformado num fenómeno viral. Antes de qualquer explicação, surgiriam hashtags, comentários indignados, vídeos de reação e julgamentos sumários.

Hoje, o velho sensacionalismo encontrou um aliado poderoso: o algoritmo.

As plataformas digitais privilegiam aquilo que gera maior envolvimento. E poucas coisas captam tanto a atenção como a polémica, a indignação e o escândalo. A economia da atenção recompensa quem acusa primeiro, não quem verifica melhor. A mentira, repetida milhares de vezes, ganha uma aparência de verdade.

Foi precisamente essa atualidade que mais me impressionou. A encenação não se limitou a reviver um clássico do teatro brasileiro; revelou como os mecanismos da demonização permanecem praticamente inalterados. Mudaram os meios de comunicação, mas continuam presentes o preconceito, a manipulação da opinião pública e a facilidade com que se destrói a reputação de alguém.

Os antigos boatos de bairro foram substituídos pelos tribunais das redes sociais. Nos comentários, qualquer utilizador se sente juiz. A presunção de inocência desaparece perante a pressão dos "gostos", das partilhas e das tendências do momento. Em poucas horas, uma pessoa pode ser condenada sem direito a defesa.

Talvez seja essa a maior lição de O Beijo no Asfalto. A verdadeira coragem não está apenas em realizar um gesto de humanidade, como fez Arandir. Está também em resistir à tentação de julgar antes de compreender, de partilhar antes de verificar e de condenar antes de conhecer os factos.

Saí do Festival de Almada convencido de que tinha assistido a uma das produções mais marcantes desta edição. O Beijo no Asfalto não é apenas um clássico do teatro. É um aviso para o nosso tempo. Num mundo dominado pela velocidade da informação e pelos algoritmos, continua a lembrar-nos que nenhuma tecnologia substitui a responsabilidade moral de procurar a verdade antes de condenar alguém.

Mais de seis décadas depois da sua estreia, Nelson Rodrigues continua a fazer-nos uma pergunta incómoda: seremos capazes de preservar a humanidade de um gesto ou continuaremos a sacrificar as pessoas no altar da opinião pública?

 

Cláudio Anaia

Foto : José Caldeira - TNSJ