Hoje, ser afetivo é cada vez mais um risco social. Num
tempo em que um gesto pode ser descontextualizado e julgado em segundos, O
Beijo no Asfalto recorda-nos que a compaixão continua a ser uma das maiores
vítimas do preconceito, do sensacionalismo e da velocidade com que se condenam
pessoas inocentes.
Ontem no Festival de Almada tive a
oportunidade de assistir a O Beijo no Asfalto, de Nelson Rodrigues, numa
produção do Teatro Nacional São João, com encenação de Tónan Quito.
Saí da sala com a sensação de ter visto muito mais do que um
espetáculo. Vi um espelho da sociedade contemporânea. É precisamente essa a
grande força dos clássicos: continuam a falar connosco, mesmo quando foram
escritos há mais de seis décadas.
Durante a representação, ocorreu-me várias vezes que Nelson
Rodrigues parecia ter escrito esta obra para o mundo das redes sociais.
Estreada em 1960, a sua mensagem encaixa de forma quase perfeita na realidade
de 2026.
A história é simples. Um homem, mortalmente atropelado, faz
um último pedido: um beijo. Arandir, movido apenas pela compaixão, satisfaz
esse desejo. O que deveria ser recordado como um gesto profundamente humano
transforma-se numa condenação pública. Os factos deixam de interessar. O
preconceito, a insinuação e o sensacionalismo tomam conta da narrativa.
Nelson Rodrigues mostra como uma sociedade pode fabricar um
culpado sem necessidade de provas. O jornalista Amado Ribeiro não procura a
verdade; procura uma história que desperte emoções, venda jornais e alimente a
curiosidade pública. A suspeita torna-se mais poderosa do que os factos.
Enquanto assistia ao espetáculo, não consegui deixar de
pensar que, se Nelson Rodrigues escrevesse O Beijo no Asfalto hoje, Amado
Ribeiro talvez não fosse jornalista. Seria um influenciador digital ou um
criador de conteúdos com milhões de seguidores. O beijo seria gravado por um
telemóvel, publicado em segundos e transformado num fenómeno viral. Antes de
qualquer explicação, surgiriam hashtags, comentários indignados, vídeos de
reação e julgamentos sumários.
Hoje, o velho sensacionalismo encontrou um aliado poderoso:
o algoritmo.
As plataformas digitais privilegiam aquilo que gera maior
envolvimento. E poucas coisas captam tanto a atenção como a polémica, a
indignação e o escândalo. A economia da atenção recompensa quem acusa primeiro,
não quem verifica melhor. A mentira, repetida milhares de vezes, ganha uma
aparência de verdade.
Foi precisamente essa atualidade que mais me impressionou. A
encenação não se limitou a reviver um clássico do teatro brasileiro; revelou
como os mecanismos da demonização permanecem praticamente inalterados. Mudaram
os meios de comunicação, mas continuam presentes o preconceito, a manipulação
da opinião pública e a facilidade com que se destrói a reputação de alguém.
Os antigos boatos de bairro foram substituídos pelos
tribunais das redes sociais. Nos comentários, qualquer utilizador se sente
juiz. A presunção de inocência desaparece perante a pressão dos
"gostos", das partilhas e das tendências do momento. Em poucas horas,
uma pessoa pode ser condenada sem direito a defesa.
Talvez seja essa a maior lição de O Beijo no Asfalto. A
verdadeira coragem não está apenas em realizar um gesto de humanidade, como fez
Arandir. Está também em resistir à tentação de julgar antes de compreender, de
partilhar antes de verificar e de condenar antes de conhecer os factos.
Saí do Festival de Almada convencido de que tinha assistido
a uma das produções mais marcantes desta edição. O Beijo no Asfalto não é
apenas um clássico do teatro. É um aviso para o nosso tempo. Num mundo dominado
pela velocidade da informação e pelos algoritmos, continua a lembrar-nos que
nenhuma tecnologia substitui a responsabilidade moral de procurar a verdade
antes de condenar alguém.
Mais de seis décadas depois da sua estreia, Nelson Rodrigues
continua a fazer-nos uma pergunta incómoda: seremos capazes de preservar a
humanidade de um gesto ou continuaremos a sacrificar as pessoas no altar da
opinião pública?
Cláudio Anaia
Foto : José Caldeira - TNSJ
