Viver o verdadeiro “carpe diem”
começa na coragem de pensar pela própria cabeça.
Há obras que não terminam quando acabam.
Continuam connosco, em silêncio, a trabalhar por dentro. Foi isso que me
aconteceu depois de ver, no passado domingo, a peça Clube dos Poetas Mortos,
no Teatro da Trindade INATEL.
Saí de lá profundamente tocado, como já tinha
acontecido quando vi o filme há muitos anos. A figura do professor John Keating
voltou com força, com a sua forma simples, mas profundamente humana, de olhar
para a vida. Uma forma que nos empurra, quase em silêncio, a viver com mais
verdade, mais consciência e mais intensidade.
O professor não ensinava apenas literatura. Mais
do que isso, ensinava os seus alunos a pensar pela sua própria cabeça, a
questionar o que lhes era imposto como verdade e a procurar a sua própria voz.
Nunca lhes dizia o que deviam pensar. Mostrava-lhes, isso sim, que pensar por
si próprios é um ato de liberdade. E talvez seja isso que mais nos marca.
No regresso a casa, durante a viagem de barco
entre Lisboa e o Barreiro, fui tomado por esse impacto. A peça ainda estava
viva em mim. E senti necessidade de escrever. De parar um pouco dentro do ritmo
do dia e dar forma ao que estava a sentir.
Clube dos Poetas Mortos é um dos meus
filmes preferidos. Não apenas pela história, mas pelo que desperta em nós. É
uma dessas obras que regressam sempre nos momentos em que nos perguntamos como
estamos a viver, e, sobretudo, se estamos mesmo a viver.
“Carpe diem” tornou-se uma expressão
repetida até perder, muitas vezes, o seu peso. Mas a verdade é simples, viver o
presente, não adiar a vida, não deixar que o medo decida por nós.
Ao pensar nisso, é inevitável olhar para o mundo
à nossa volta. Vivemos numa sociedade que fala muito de liberdade de pensamento
e de expressão, mas onde, tantas vezes, quem pensa pela própria cabeça acaba
por não ser bem recebido. No trabalho, na política, nas organizações, até nas
relações mais próximas, há quem questione, quem procure compreender antes de
aceitar, quem não se deixa moldar facilmente, e isso, por vezes, isola.
Torna-se desconfortável para os outros. E esse desconforto pode transformar-se em
muitos casos em afastamento.
É curioso como, tantos anos depois, a mensagem de
John Keating continua tão atual. Ele não queria alunos que repetissem ideias.
Queria pessoas capazes de pensar por si próprias, de construir as suas próprias
convicções e de viver com a coragem de ser diferentes quando a consciência
assim o pedisse. Talvez hoje nos falte precisamente isso, menos repetição, mais
pensamento próprio.
No meu percurso pessoal e profissional, essa
ideia tem sido uma espécie de bússola. Nem sempre é fácil. Nem sempre é
compreendida. Mas aprendi a aceitá-la como parte de quem sou. Pensar pela
própria cabeça tem um preço, mas também tem um valor que não sei viver sem ele.
“Carpe diem” não é viver sem
consequências. É viver com consciência, mas sem adiar o essencial. É dar valor
às coisas pequenas, uma conversa, uma palavra, um gesto, que, às vezes, mudam
mais do que imaginamos.
A vida ganha sentido quando não a vivemos apenas
para nós próprios. Quando há partilha, quando há entrega, quando há a vontade
sincera de deixar alguma coisa boa nas pessoas que cruzam o nosso caminho.
No fundo, talvez seja isto, não adiar quem somos,
mesmo quando o mundo parece pedir outra coisa. E, ainda assim, continuar a
acreditar.
Cláudio Anaia
