segunda-feira, junho 22, 2026

Clube dos Poetas Mortos

 


Viver o verdadeiro “carpe diem” começa na coragem de pensar pela própria cabeça.

Há obras que não terminam quando acabam. Continuam connosco, em silêncio, a trabalhar por dentro. Foi isso que me aconteceu depois de ver, no passado domingo, a peça Clube dos Poetas Mortos, no Teatro da Trindade INATEL.

Saí de lá profundamente tocado, como já tinha acontecido quando vi o filme há muitos anos. A figura do professor John Keating voltou com força, com a sua forma simples, mas profundamente humana, de olhar para a vida. Uma forma que nos empurra, quase em silêncio, a viver com mais verdade, mais consciência e mais intensidade.

O professor não ensinava apenas literatura. Mais do que isso, ensinava os seus alunos a pensar pela sua própria cabeça, a questionar o que lhes era imposto como verdade e a procurar a sua própria voz. Nunca lhes dizia o que deviam pensar. Mostrava-lhes, isso sim, que pensar por si próprios é um ato de liberdade. E talvez seja isso que mais nos marca.

No regresso a casa, durante a viagem de barco entre Lisboa e o Barreiro, fui tomado por esse impacto. A peça ainda estava viva em mim. E senti necessidade de escrever. De parar um pouco dentro do ritmo do dia e dar forma ao que estava a sentir.

Clube dos Poetas Mortos é um dos meus filmes preferidos. Não apenas pela história, mas pelo que desperta em nós. É uma dessas obras que regressam sempre nos momentos em que nos perguntamos como estamos a viver, e, sobretudo, se estamos mesmo a viver.

“Carpe diem” tornou-se uma expressão repetida até perder, muitas vezes, o seu peso. Mas a verdade é simples, viver o presente, não adiar a vida, não deixar que o medo decida por nós.

Ao pensar nisso, é inevitável olhar para o mundo à nossa volta. Vivemos numa sociedade que fala muito de liberdade de pensamento e de expressão, mas onde, tantas vezes, quem pensa pela própria cabeça acaba por não ser bem recebido. No trabalho, na política, nas organizações, até nas relações mais próximas, há quem questione, quem procure compreender antes de aceitar, quem não se deixa moldar facilmente, e isso, por vezes, isola. Torna-se desconfortável para os outros. E esse desconforto pode transformar-se em muitos casos em afastamento.

É curioso como, tantos anos depois, a mensagem de John Keating continua tão atual. Ele não queria alunos que repetissem ideias. Queria pessoas capazes de pensar por si próprias, de construir as suas próprias convicções e de viver com a coragem de ser diferentes quando a consciência assim o pedisse. Talvez hoje nos falte precisamente isso, menos repetição, mais pensamento próprio.

No meu percurso pessoal e profissional, essa ideia tem sido uma espécie de bússola. Nem sempre é fácil. Nem sempre é compreendida. Mas aprendi a aceitá-la como parte de quem sou. Pensar pela própria cabeça tem um preço, mas também tem um valor que não sei viver sem ele.

“Carpe diem” não é viver sem consequências. É viver com consciência, mas sem adiar o essencial. É dar valor às coisas pequenas, uma conversa, uma palavra, um gesto, que, às vezes, mudam mais do que imaginamos.

A vida ganha sentido quando não a vivemos apenas para nós próprios. Quando há partilha, quando há entrega, quando há a vontade sincera de deixar alguma coisa boa nas pessoas que cruzam o nosso caminho.

No fundo, talvez seja isto, não adiar quem somos, mesmo quando o mundo parece pedir outra coisa. E, ainda assim, continuar a acreditar.

Cláudio Anaia