domingo, maio 10, 2026

Estou de férias em Goa, na Índia.

 


Goa não se visita apenas com os olhos. Sente-se com a memória, com a fé e com o coração.

Viajar é, muitas vezes, atravessar geografias. Mas há viagens que são muito mais do que deslocações físicas. São encontros inesperados com a memória, com a cultura e com pessoas que acabam por dar alma aos lugares. A minha passagem por Goa tem sido exatamente isso.

Chegar à Índia é mergulhar num universo intenso de cores, aromas, espiritualidade e movimento constante. Um país profundamente marcado pela tradição hindu, pelos templos, pelas buzinas incessantes, pelos mercados cheios de vida e por uma energia humana difícil de explicar por palavras.

Mas Goa é diferente.

Tem uma identidade própria. Um ambiente onde o Oriente e o Ocidente parecem coexistir de forma natural, quase silenciosa.

Ao caminhar por algumas ruas e becos, há momentos estranhos e fascinantes para um português. Entre igrejas antigas, fachadas coloniais e pequenos detalhes do quotidiano, surgem palavras em português, apelidos familiares, referências católicas, imagens de santos e histórias que atravessaram séculos. Em certos instantes, sente-se que a história continua ali, discreta, mas viva.

Em Goa, Portugal não desapareceu. Transformou-se em memória viva.

Um dos momentos mais marcantes desta viagem foi a visita a Velha Goa, um lugar que impressiona profundamente. Caminhar entre igrejas monumentais, ruínas carregadas de história e espaços de forte espiritualidade é como atravessar séculos num só dia. Ali respira-se uma herança religiosa e histórica imensa, onde a presença missionária de São Francisco Xavier ainda ecoa na memória coletiva e na dimensão espiritual do lugar.

Há ali uma grandeza silenciosa, uma espécie de solenidade que não precisa de explicação. Saí de lá com uma sensação difícil de descrever: a de ter tocado numa parte viva da História.

No passado Domingo, vivi também um momento particularmente especial e inesperado: assistir a uma missa celebrada em português, em Goa. Num território tão distante de Portugal, ouvir novamente a língua portuguesa dentro de uma igreja, acompanhada pela liturgia católica, teve para mim um significado profundamente emotivo.

Foi impossível não sentir uma ligação intensa entre passado e presente, entre culturas e memórias que continuam vivas deste lado do mundo. Mais do que uma celebração religiosa, foi um momento de encontro com a história, com a identidade e também comigo próprio.

Confesso que foi um daqueles instantes simples, mas verdadeiramente inesquecíveis.

Tenho tido o privilégio de estar hospedado numa antiga casa histórica do século XVI, um espaço carregado de simbolismo e memória. Paredes antigas, ambientes silenciosos e a sensação permanente de que cada corredor guarda histórias de outras épocas. Mais do que um alojamento, é quase uma viagem dentro da própria alma goesa.

Mas aquilo que verdadeiramente marca uma viagem são as pessoas.

Tenho sido acolhido com enorme carinho por um grande amigo português que trabalha atualmente na Índia e pela sua mãe, uma senhora goesa de quase 87 anos, que vive em Portugal. A sua presença simboliza, de certa forma, essa ponte humana e cultural entre dois países separados pela distância, mas unidos por séculos de ligação histórica.

Talvez seja isso que torna Goa tão especial. Não é apenas um lugar turístico. É um território de encontros. Um espaço onde diferentes culturas, religiões e identidades aprenderam, ao longo do tempo, a coexistir.

Num país maioritariamente hindu, encontrar comunidades católicas tão presentes, igrejas cheias de história e sinais da presença portuguesa, desperta inevitavelmente reflexão. Não sobre colonialismo ou nostalgia fácil, mas sobre aquilo que permanece nas pessoas, nos hábitos, na fé e nas memórias coletivas.

Goa não é Portugal na Índia. Nem é apenas Índia com influência portuguesa. Goa é algo único. Um lugar com identidade própria, construída ao longo dos séculos entre o mar, a fé, as especiarias, as diferenças culturais e os afetos humanos.

E percebo agora que há lugares que não se deixam visitar. Deixam-se viver.

Goa não fica no mapa. Fica na memória.

Cláudio Anaia