sábado, abril 25, 2026

Razões para ser Católico



Quando me pediram para refletir sobre as razões para ser católico, a primeira questão que coloquei a mim próprio foi esta: antes de ser católico, sou verdadeiramente cristão?

Esta distinção é importante, porque muitas vezes se confunde a Igreja enquanto Corpo de Cristo com a sua dimensão institucional e hierárquica. Ao longo da história, alguns dos seus membros não souberam transmitir fielmente os ensinamentos de Cristo, deixando-se influenciar por interesses políticos ou pessoais. Essa realidade contribuiu para o afastamento de muitos.

Vivemos numa sociedade marcada pela pressa e pelo imediatismo. Muitas vezes, rezamos apenas quando precisamos, de forma automática e pouco consciente. Falhamos frequentemente em viver a nossa fé no quotidiano: ignoramos quem precisa de ajuda ao nosso lado, enquanto gastamos em coisas supérfluas aquilo que poderia aliviar o sofrimento de outros. Estes comportamentos ajudam a explicar por que tantos deixaram de acreditar na Igreja.

Recordo um episódio marcante da minha vida profissional. Um doente, figura relevante do país, disse-me: “Não sou católico, sou humanista.” Respondi-lhe que, se era verdadeiramente humanista, então, de algum modo, era também crente em Deus, pois Deus manifesta-se no homem. Ele hesitou. Percebi que associava a Igreja a figuras históricas e contextos políticos com os quais discordava, confundindo a instituição com a essência da fé.

Expliquei-lhe que a verdadeira Igreja é a humanidade, da qual todos fazemos parte, tendo Cristo como cabeça. Falei-lhe também do papel do Papa, sublinhando que a fé não implica obediência cega, mas uma adesão consciente e racional, porque a fé não se opõe à razão, antes a ilumina.

No final, disse-me: “Se me tivessem falado assim, talvez a minha relação com Deus tivesse sido diferente.” Respondi-lhe que Deus não é apenas dos crentes, mas de todos.

É com profundo respeito por todas as confissões cristãs, e reconhecendo as fragilidades da Igreja Católica, que agradeço a Deus ser cristão católico. Agradeço pelos tesouros espirituais que nela encontrei.

A Igreja nasceu quando Pedro reconhece em Jesus o Filho de Deus, e Cristo diz lhe: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja.” Durante os primeiros mil anos, “católico” era praticamente sinónimo de “cristão”. Só mais tarde, com o Grande Cisma, se deu a separação entre Igreja Ocidental/Católica e Oriental/Ortodoxa.

“Católico” significa “universal”. Esta universalidade implica uma visão aberta da humanidade, sem espaço para racismo ou exclusão. Ser católico é, para mim, acreditar que cada pessoa pode contribuir para a transformação da sociedade, tornando-a mais justa e mais humana.

A preocupação com os mais pobres e vulneráveis está no centro desta visão. Deus deseja que todos alcancem a plenitude como seres humanos. Ser católico é estar ao lado dos que lutam por justiça, contra as desigualdades e discriminações, promovendo condições para que cada pessoa se realize plenamente.

Ser católico é também reconhecer Deus no mundo, nas mais diferentes áreas como no trabalho, na cultura, na ciência, nas relações humanas, na família e até nos momentos de lazer. Não há separação entre vida espiritual e vida quotidiana, as duas são caminho de encontro com Deus.

Na minha vida, particularmente como médico, encontro um dos maiores mistérios. Nasci numa pequena aldeia, sem condições básicas, e desde muito cedo senti o desejo de ser médico. Nunca encontrei uma explicação puramente racional para isso. Vejo-o como uma graça, um dom gratuito que deu sentido à minha vida.

Ser médico, para mim, nunca foi apenas uma profissão técnica. Sempre senti que não podia separar a doença da pessoa que sofre. Muitas vezes, os problemas mais profundos dos doentes não são físicos, mas da alma. A verdadeira medicina exige proximidade, empatia e humanidade.

Dou graças a Deus por poder servir através da minha profissão. Mesmo quando me afasto, sei que Ele permanece presente, pronto a acolher-me. Essa é, para mim, a maior prova de amor.

Também eu experimentei a fragilidade da doença. Passei por situações graves que me fizeram compreender melhor quem sofre. Essas experiências reforçaram a minha convicção de que o doente procura mais do que competência técnica. Procura confiança, compreensão e esperança.

Quantas vezes, ao ajudar alguém, sinto que não sou eu o autor da cura, mas apenas instrumento. Como costumo dizer aos meus doentes: “Foi Deus que me deu os meios para o tratar.”

A fé ensina-me que o livre-arbítrio é sagrado. Deus não se impõe, Ele convida. Cabe a cada um escolher o caminho do bem e do amor.

Na Páscoa, celebramos o mistério central da fé cristã: o amor levado até ao extremo. Cristo entrega-se livremente, revelando que o amor vence a morte, que a luz supera as trevas.

Vivemos tempos difíceis, não apenas economicamente, mas sobretudo ao nível dos valores. A ética e a moral parecem, por vezes, desvalorizadas. Mas o cristão não pode aceitar que o fim justifique todos os meios. É chamado a testemunhar que o bem deve prevalecer.

Ser católico não é um conjunto de práticas isoladas. É uma forma de viver e amar sem condições. É dizer “sim” , a Deus, ao outro, e à vida.

E essa continua a ser, para mim, a mais bela razão para ser católico.. 


Fernando Ramalho

Médico; Professor da Faculdade de Medicina de Lisboa