segunda-feira, maio 25, 2026

Quando o problema precisa de sair de nós

O que nos assusta por dentro muitas vezes perde força quando encontra o outro.

A minhas férias em Goa, sem dúvida deixaram marcas em mim, nesse período, numa festa de aniversário de uma criança, para a qual fui convidado, assisti a uma intervenção pública de um padre que me deixou a pensar. No meio da celebração, num contexto simples e aparentemente leve e descontraído, acabou por partilhar uma história profundamente reveladora sobre a forma como muitas vezes lidamos com aquilo que nos pesa interiormente. Contou que uma senhora tinha ido ter com ele, aflita, dizendo que carregava um grande problema e que vivia aquela situação com uma angústia constante, procurando uma resposta imediata, algo que lhe devolvesse alguma paz ou, pelo menos, um caminho claro para sair daquele estado de inquietação. O padre, no entanto, não lhe deu uma solução direta nem tentou desmontar o problema naquele momento. Em vez disso, disse-lhe algo inesperado e até desconcertante: “Durante uma semana, fale com várias pessoas. Depois volte cá e falamos.” A senhora saiu sem perceber totalmente o sentido daquela orientação, mas seguiu o conselho. Uma semana depois, voltou a encontrar-se com o sacerdote e, de forma quase surpreendente, disse-lhe apenas: “Já nem me lembro do problema que me trouxe aqui.”

Esta resposta, simples e quase desarmante, abre espaço para uma reflexão que vai muito para além da situação concreta. Vivemos hoje numa sociedade onde muitos problemas ganham dimensão não apenas pela sua natureza real, mas sobretudo pela forma como são vividos em isolamento. Crescem no silêncio, alimentados pela repetição mental, pela ausência de confronto com outras perspetivas e pela tendência, cada vez mais comum, de nos fecharmos dentro da nossa própria leitura do mundo. Falamos constantemente e estamos ligados o tempo todo, mas isso não significa que exista verdadeira partilha. Há comunicação em excesso, mas escassez de encontro real e, quando não há encontro, o risco é ficarmos presos dentro da nossa própria narrativa, onde tudo se amplifica e ganha um peso que muitas vezes não teria se fosse exposto ao olhar do outro.

O gesto daquele padre não foi o que se poderia esperar, porque não procurou resolver o problema no imediato nem oferecer uma resposta pronta, antes procurou retirar aquele sofrimento do isolamento em que estava fechado, devolvendo-o ao contacto humano, à diversidade de vozes e à realidade partilhada, e isso muda tudo. Há situações que não precisam apenas de respostas rápidas, mas de serem colocadas novamente em circulação na vida, no diálogo e no encontro com os outros. No fundo, esta história lembra-nos algo simples, mas cada vez mais esquecido: nem tudo o que pesa dentro de nós tem a dimensão que assume quando estamos sozinhos com ele. Muitas vezes, o maior problema não é aquilo que sentimos, mas o facto de o vivermos sozinhos tempo demais.

Cláudio Anaia