sexta-feira, março 27, 2026

A Galinha e a Ordem

 


O problema não é só haver quem arranque penas — é haver quem continue a seguir por migalhas,  dando em troca a sua liberdade 

Há histórias simples que dizem mais sobre uma sociedade do que muitos discursos políticos.

Uma delas é a história da galinha.

Um ditador reúne os seus generais e pede-lhes que tragam uma galinha. Quando o animal chega, segura-o e começa, lentamente, a arrancar-lhe as penas. A galinha debate-se, sofre, tenta fugir… mas não consegue. Fica ferida, exposta, vulnerável.

Depois, o ditador pousa-a no chão.

E, como se nada fosse, começa a atirar pequenas migalhas de comida enquanto se afasta.

O inesperado acontece: a galinha, mesmo magoada, segue-o. Aproxima-se. Procura as migalhas. Continua atrás daquele que a feriu.

O ditador olha para os presentes e explica: é assim que se controla.

Esta história não é sobre uma galinha.

É sobre nós.

Sobre uma sociedade que, tantas vezes, aceita o desconforto como normal. Que se habitua à perda de direitos, à erosão da dignidade, à ausência de respeito. Que sofre, murmura… mas continua a seguir, desde que haja pequenas recompensas pelo caminho.

Migalhas.

Mas há um outro lado desta história que raramente se conta.

O lado de quem recusa seguir.

O lado de quem olha para a galinha e não vê fraqueza, mas vê dor. Vê injustiça. Vê manipulação. E decide dizer: isto não está certo.

E é aqui que começa a perseguição.

Não a perseguição do ditador — essa é óbvia, quase esperada.

Mas a perseguição subtil, silenciosa, muitas vezes cruel, dos próprios que seguem. Dos que preferem não questionar. Dos que se sentem incomodados por quem levanta a voz.

Porque quem denuncia o jogo… estraga o jogo.

Falo também por mim.

Por mais do que uma vez, senti o peso de ser visto como “desalinhado”, “destravadο”, “inconveniente”. Não por fazer mal a alguém, mas por dizer o que penso. Por não aceitar as migalhas como suficientes. Por recusar a lógica de que devemos agradecer a quem nos retira dignidade e depois nos oferece sobras.

Há um preço a pagar por não ser galinha.

E esse preço chama-se isolamento, difamação,  crítica, desvalorização. Às vezes, até afastamento.

Mas há também uma liberdade que não tem preço.

A liberdade de não seguir quem nos fere. A liberdade de pensar. A liberdade de manter a dignidade, mesmo quando isso incomoda.

Vivemos numa democracia com décadas de história, mas ainda assim marcada por silêncios estranhos. Questionar incomoda. Pensar diferente afasta. Ir mais fundo pode significar ficar sozinho.

E talvez por isso haja quem prefira as migalhas à liberdade.

Mas uma sociedade que se alimenta de migalhas nunca será verdadeiramente livre. Será apenas funcional. Controlada. Previsível.

A verdadeira mudança começa quando alguém deixa de seguir.

Quando alguém, mesmo ferido, decide não voltar atrás de quem o feriu. Quando a consciência se sobrepõe à necessidade imediata. Quando a dignidade fala mais alto do que o medo.

A história da galinha é incómoda.

Mas talvez seja precisamente por isso que precisa de ser contada.

Porque, no fim, a pergunta não é o que faz o ditador.

A pergunta é: porque continuamos nós a segui-lo?

E mais ainda:

o que estamos dispostos a perder… para deixar de o fazer?

Cláudio Anaia