O problema não é só haver quem arranque penas — é haver quem continue a seguir por migalhas, dando em troca a sua liberdade
Há histórias simples que dizem mais sobre uma sociedade do que muitos
discursos políticos.
Uma delas é a história da galinha.
Um ditador reúne os seus generais e pede-lhes que tragam uma galinha. Quando
o animal chega, segura-o e começa, lentamente, a arrancar-lhe as penas. A
galinha debate-se, sofre, tenta fugir… mas não consegue. Fica ferida, exposta,
vulnerável.
Depois, o ditador pousa-a no chão.
E, como se nada fosse, começa a atirar pequenas migalhas de comida enquanto
se afasta.
O inesperado acontece: a galinha, mesmo magoada, segue-o. Aproxima-se.
Procura as migalhas. Continua atrás daquele que a feriu.
O ditador olha para os presentes e explica: é assim que se controla.
Esta história não é sobre uma galinha.
É sobre nós.
Sobre uma sociedade que, tantas vezes, aceita o desconforto como normal. Que
se habitua à perda de direitos, à erosão da dignidade, à ausência de respeito.
Que sofre, murmura… mas continua a seguir, desde que haja pequenas recompensas
pelo caminho.
Migalhas.
Mas há um outro lado desta história que raramente se conta.
O lado de quem recusa seguir.
O lado de quem olha para a galinha e não vê fraqueza, mas vê dor. Vê
injustiça. Vê manipulação. E decide dizer: isto não está certo.
E é aqui que começa a perseguição.
Não a perseguição do ditador — essa é óbvia, quase esperada.
Mas a perseguição subtil, silenciosa, muitas vezes cruel, dos próprios que
seguem. Dos que preferem não questionar. Dos que se sentem incomodados por quem
levanta a voz.
Porque quem denuncia o jogo… estraga o jogo.
Falo também por mim.
Por mais do que uma vez, senti o peso de ser visto como “desalinhado”,
“destravadο”, “inconveniente”. Não por fazer mal a alguém, mas por dizer o que
penso. Por não aceitar as migalhas como suficientes. Por recusar a lógica de
que devemos agradecer a quem nos retira dignidade e depois nos oferece sobras.
Há um preço a pagar por não ser galinha.
E esse preço chama-se isolamento, difamação,
crítica, desvalorização. Às vezes, até afastamento.
Mas há também uma liberdade que não tem preço.
A liberdade de não seguir quem nos fere. A liberdade de pensar. A liberdade
de manter a dignidade, mesmo quando isso incomoda.
Vivemos numa democracia com décadas de história, mas ainda assim marcada por
silêncios estranhos. Questionar incomoda. Pensar diferente afasta. Ir mais
fundo pode significar ficar sozinho.
E talvez por isso haja quem prefira as migalhas à liberdade.
Mas uma sociedade que se alimenta de migalhas nunca será verdadeiramente
livre. Será apenas funcional. Controlada. Previsível.
A verdadeira mudança começa quando alguém deixa de seguir.
Quando alguém, mesmo ferido, decide não voltar atrás de quem o feriu. Quando
a consciência se sobrepõe à necessidade imediata. Quando a dignidade fala mais
alto do que o medo.
A história da galinha é incómoda.
Mas talvez seja precisamente por isso que precisa de ser contada.
Porque, no fim, a pergunta não é o que faz o ditador.
A pergunta é: porque continuamos nós a segui-lo?
E mais ainda:
o que estamos dispostos a perder… para deixar de o fazer?
Cláudio Anaia
