quarta-feira, novembro 20, 2013
Cinema : Desligados
Henry Alex Rubin estreia-se na ficção com Disconnect. Tem no currículo dois documentários, um de 1997 (“Who is Henry Jaglom?”) e outro de 2005 (“Murderball”). Aqui, o interesse começa no título, que pode logo sugerir dois sentidos. O primeiro, mais óbvio, é querer dizer apenas “desligar” (no infinitivo); o outro, mais poético e que a nossa língua não permitiria, é a possibilidade de se tratar de um imperativo: “Desliga”.
O triângulo narrativo é composto por um casal que perde todo o dinheiro on-line depois de a mulher conversar num chat; um jovem músico, de cabelo à frente dos olhos e poucos amigos, fascinado por uma composição de Max Ritcher; e uma jornalista ambiciosa que prepara um grande trabalho para subir na carreira. Em comum: uma coisa esquisita e poderosa chamada Internet. Todos eles dependem dela, todos eles se ligam através dela, e todos eles encontrarão o abismo por causa dela. Alguns avistá-lo-ão a tempo de recuar, outros não.
Em entrevistas, Rubin deixou clara a sua preferência pelo documentário, por tratar de pessoas vivas que andam no mundo, e não, como aliás a outra palavra indica, de coisas ficcionais. É talvez devido a essa preferência que este, suposto filme de ficção, carrega consigo uma dimensão realista próxima do documentário, que não é conseguida ao acaso. Nas mãos de Rubin, as formas de lá chegar começam na própria realização, quase sempre de câmara em mão (que não pode deixar de fazer piscar a palavra Iñárritu na cabeça dos cinéfilos), e continuam pela verosimilhança dos diálogos e interpretações, que aproximam espectador e personagem. E incrível se torna quando o mesmo espectador, por via de algo exterior ao filme – pois não nos é dado o cliché “based on true events” - se dá conta que o realizador (juntamente com o argumentista) emparelhou três narrativas a partir de três enunciados verdadeiros. O que aumenta ou intensifica, pela ordem natural das coisas, o pathos de quem vê. E esse conjunto de sentimentos é orgânico, humano, e não apenas intelectual. Não é um filme estético, onde a distância entre quem vê e quem é visto se cria pela própria natureza da obra. Nunca dizemos: isto é bonito mas é mentira. Dizemos: isto é bonito (ou feio) e é verdade.
Um outro ponto forte do filme é nunca se deixar cair na moralização fácil. Não nos quer mostrar como as pessoas seriam melhores ou piores sem internet, simplesmente conta três histórias onde essa grande rede pode ser um poço sem fundo. Resta saber (e é uma discussão sem horizonte) se nos trouxe mais coisas boas que más.
Citação de uma cena: Abby está com as amigas no bar da escola, a relatar uma tragédia familiar, e a reacção entristecida das presentes é interrompida por um convite para jantar recebido no telemóvel de uma delas. A compaixão é substituída por um delírio momentâneo, fútil e conectado. Muito se podia dizer acerca desta genial e terrível passagem, mas vem aí o ponto final.
António Seabra
Veja o trailer : AQUI
