quarta-feira, novembro 27, 2013

Exclusão e desigualdade "provocarão a explosão"



"Enquanto não se eliminar a exclusão e a desigualdade social, na sociedade e entre vários povos, será impossível erradicar a violência. Acusamos os pobres [...] da violência, mas, sem igualdade de oportunidades, as diferentes formas de agressão e de guerra encontrarão terreno fértil que, tarde ou cedo, provocará a explosão", escreveu o papa na exortação apostólica "Evangelii Gaudium" (A Alegria do Evangelho em português).

O documento de 142 páginas, o primeiro do género do seu pontificado, dá orientações sobre a nova evangelização, na sequência da assembleia sinodal de outubro de 2012, e, num sentido mais lato, apresenta o programa e as ideias pessoais do papa.

No documento, Francisco critica o sistema económico mundial, que considera não apenas "injusto na sua raiz", mas que "mata" porque faz predominar a lei do mais forte.

"Como o mandamento de 'não matar' põe um limite claro para assegurar o valor da vida humana, hoje temos que dizer não a uma economia da exclusão e da desigualdade. Essa economia mata", disse o papa.

O papa considerou revoltante que "não seja notícia a morte de frio de um idoso na rua e que o seja uma queda de dois pontos na bolsa" de valores.

"Isso é exclusão", exclama o papa, que denuncia a "atual cultura do descartar".

É uma cultura que não só "deita fora a comida quando há gente que passa fome", como "considera o ser humano um bem de consumo, que se pode usar e logo descartar".

"Já não se trata simplesmente do fenómeno dos excluídos e explorados, mas de serem considerados restos", afirma o papa argentino.

Jorge Bergoglio critica também aqueles que "continuam a defender as teorias que sustentam que todo o crescimento económico, favorecido pela liberdade de mercado, consegue por si só maior igualdade e inclusão social no mundo".

Segundo o papa, "vivemos na idolatria do dinheiro" à qual se junta "uma corrupção ramificada e uma evasão fiscal egoísta, que assumiram dimensões mundiais".

A par da crise financeira, segundo o papa, há "uma profunda crise antropológica que nega a primazia do ser humano e o substitui por outros ídolos".

O papa lamenta que enquanto "os ganhos de poucos crescem exponencialmente", os da maioria estejam "cada vez mais longe do bem-estar dessa minoria feliz".

Este desequilíbrio social, continua o papa, "provém de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e da especulação financeira" e que estão a negar "o direito de controlo dos Estados, responsáveis por velar pelo bem comum".

Por isso, o papa dirige-se aos líderes políticos para lhes pedir "uma reforma financeira que não ignore a ética" e para que encarem "este desafio com determinação e visão de futuro".

"O dinheiro deve servir e não governar", sentencia o papa, assegurando que apesar de "amar a todos, ricos e pobres" tem a obrigação "de recordar que os ricos devem ajudar os pobres, respeitá-los e promovê-los".

Numa outra passagem do longo texto, o papa considera que, apesar de ser tão denegrida, a política "é uma das formas mais importantes de caridade"

"Peço ao senhor que nos ofereça mais políticos a quem doa a verdade da vida dos pobres", disse.

domingo, novembro 24, 2013

Boa disposição


Às vezes acordo mal disposta. Mal disposta porque acordo, porque ninguém me dá os bons dias, porque o dia não está com o sol e o calor de que gostava, porque tenho que sair à pressa… Por uma quantidade de passos que não vão de encontro ao meu querer e interesse.

Tenho descoberto que estar bem-disposto é um estado de humildade e de graça, é dispormo-nos diante da vida e do outro com mais amor e humor. É não definharmos a possibilidade que a vida e os outros têm de nos surpreender e abrirmos espaço à certeza de que tudo é mais suportável se houver um olhar de bondade e esperança sobre as coisas.

Dispor-me bem é colocar-me com leveza diante do outro, sem deixar que as expectativas derrubem os laços, sem esperar que seja o outro e a vida a dar-me, mas antecipando-me na entrega e na alegria, porque algo maior já me foi dado.

Luísa Sobral

quarta-feira, novembro 20, 2013

Cinema : Desligados




Henry Alex Rubin estreia-se na ficção com Disconnect. Tem no currículo dois documentários, um de 1997 (“Who is Henry Jaglom?”) e outro de 2005 (“Murderball”). Aqui, o interesse começa no título, que pode logo sugerir dois sentidos. O primeiro, mais óbvio, é querer dizer apenas “desligar” (no infinitivo); o outro, mais poético e que a nossa língua não permitiria, é a possibilidade de se tratar de um imperativo: “Desliga”.

O triângulo narrativo é composto por um casal que perde todo o dinheiro on-line depois de a mulher conversar num chat; um jovem músico, de cabelo à frente dos olhos e poucos amigos, fascinado por uma composição de Max Ritcher; e uma jornalista ambiciosa que prepara um grande trabalho para subir na carreira. Em comum: uma coisa esquisita e poderosa chamada Internet. Todos eles dependem dela, todos eles se ligam através dela, e todos eles encontrarão o abismo por causa dela. Alguns avistá-lo-ão a tempo de recuar, outros não.

Em entrevistas, Rubin deixou clara a sua preferência pelo documentário, por tratar de pessoas vivas que andam no mundo, e não, como aliás a outra palavra indica, de coisas ficcionais. É talvez devido a essa preferência que este, suposto filme de ficção, carrega consigo uma dimensão realista próxima do documentário, que não é conseguida ao acaso. Nas mãos de Rubin, as formas de lá chegar começam na própria realização, quase sempre de câmara em mão (que não pode deixar de fazer piscar a palavra Iñárritu na cabeça dos cinéfilos), e continuam pela verosimilhança dos diálogos e interpretações, que aproximam espectador e personagem. E incrível se torna quando o mesmo espectador, por via de algo exterior ao filme – pois não nos é dado o cliché “based on true events” - se dá conta que o realizador (juntamente com o argumentista) emparelhou três narrativas a partir de três enunciados verdadeiros. O que aumenta ou intensifica, pela ordem natural das coisas, o pathos de quem vê. E esse conjunto de sentimentos é orgânico, humano, e não apenas intelectual. Não é um filme estético, onde a distância entre quem vê e quem é visto se cria pela própria natureza da obra. Nunca dizemos: isto é bonito mas é mentira. Dizemos: isto é bonito (ou feio) e é verdade.

Um outro ponto forte do filme é nunca se deixar cair na moralização fácil. Não nos quer mostrar como as pessoas seriam melhores ou piores sem internet, simplesmente conta três histórias onde essa grande rede pode ser um poço sem fundo. Resta saber (e é uma discussão sem horizonte) se nos trouxe mais coisas boas que más.

Citação de uma cena: Abby está com as amigas no bar da escola, a relatar uma tragédia familiar, e a reacção entristecida das presentes é interrompida por um convite para jantar recebido no telemóvel de uma delas. A compaixão é substituída por um delírio momentâneo, fútil e conectado. Muito se podia dizer acerca desta genial e terrível passagem, mas vem aí o ponto final.

António Seabra

Veja o trailer : AQUI

quarta-feira, novembro 13, 2013

Sintonia



Mais que um momento... um Encontro, com banda sonora . “Ouço” dois corações em sintonia a construir algo de bom. Pedra sobre pedra até serem uma alma só. Na dança da vida nem tudo será perfeito, mas enquanto quiserem lutar por “dançar” assim, tudo valerá a pena. “Siga a música” e a persistente vontade de amar.

segunda-feira, novembro 04, 2013

Nazaré Blow Up ...




Momento de surf nos limites: acedam ao link abaixo (vídeo de 4:34min, ecrã total, com banda sonora de Carmina Burana) e vejam as imagens espectaculares de surfistas sobre as ondas, no mar alteroso da Nazaré e também a acção das motas de água no seu apoio. Exemplos de coragem e elevadíssimo risco.
Este vídeo foi editado hoje mesmo.