
A Maria Manuel é uma amiga que conheci por acaso, através de terceira pessoa.
A partir dai cresceu uma boa amizade, troca de cumplicidades, ideias e convicções em comum.
Com alguma regularidade vai a Africa desenvolver trabalho social, por isso ,convidei-a a escrever neste Blog.
Aqui fica o seu testemunho :
Todos os anos penso que este é o último, digo para mim própria que já não tenho idade, vida e coloco em dúvida aquilo que tenho para dar.
Mas também todos os anos, ou quase todos faço uma nova caminhada para partir e, ao mesmo tempo chegar a um continente que neste momento tem um pedaço do meu coração.
Por vezes pergunto-me o porquê de voltar, se será pela terra vermelha, pelo cheiro, a cultura, as gentes?
Na verdade é por tudo isso, mas aquele povo que nos recebe sem exigir, que nos olha sem nos pedir, que nos dá sem se aperceber de quanto nos dá e, aquela criança que se entrega no primeiro olhar e nos conquista no primeiro sorriso é o que me faz fazer a mala e partir.
Após uma caminhada de 12 meses, durante os quais se foi fazendo grupo, e angariando fundos, chegou o tão esperado dia da partida.
Éramos vinte jovens de várias áreas desde a educação, à saude, ao direito, e engenharias, que nos juntámos com um único propósito, que era o de poder dar o que tinhamos de melhor a quem tem tão pouco.
Nas nossas cabeças só tinhamos um pensamento o nosso local de destino – Benguela em Angola, país que se encontrava em plena campanha eleitoral, e o trabalho que iriamos realizar neste mês de Agosto.
Chegados ao destino encontramos uma cidade em constante mudança, e um país que se encontra a crescer de dia para dia, no entanto com muito trabalho ainda pela frente.
O nosso trabalho que já estava definido desde Portugal teve que se alterar e se adaptar à realidade e ás novas circunstâncias do país, nomeadamente a decisão do governo de em pleno funcionamento do ano lectivo dar férias aos alunos, e professores para que estes últimos pudessem colaborar na campanha.
O nosso trabalho foi dividido em três grupos, sendo que um grupo esteve directamente ligado ao Lar de raparigas das Irmãs Doroteias, onde se encontram 56 meninas de várias idades mas com histórias de vida muito sofridas, o trabalho realizado foi no âmbito educacional, a nível de formação de informática, explicações, aulas de Inglês, educação física e mais importante ainda a nivel emocional, já que para realizar todo esse trabalho havia que ganhar a confiança dessas meninas porque só assim se poderiam alcançar resultados, este grupo esteve presente também nos grupos paroquiais e deu formação a professores do colégio das Irmãs Doroteias.
Os outros dois grupos tiveram como local de actuação dois “Mussekes” ou seja bairros periféricos nomeadamente o da Fronteira (paróquia de Santo António) e o Kandumbo, dois bairros onde a pobreza, o lixo, e a vida de expediente (criminosa) se mistura com a vontade de aprender, de sonhar, e de construir um futuro.
Aqui o nosso trabalho foi o de tentar chegar a todas as pessoas e grupos, começámos com a formação de professores, as explicações que foram de alunos de primeiro ciclo até ao terceiro ciclo, jogos e brincadeiras com os “meninos da caixa de areia” ou seja os meninos considerados de rua, actividades com a catequese, e a discussão de temas como o voluntariado, a violência doméstica, delinquência juvenil, Gravidez na adolescência entre outros, com os vários grupos paroquiais (casais, jovens, Promaica( promoção da mulher angolana na Igreja), escuteiros, Comissão de Justiça e Paz). Formação a enfermeiros e trabalho no Centro de Saúde Paroquial.
Chegando ao fim da nossa missão chegamos à conclusão que como diz a publicidade era só mais um bocadinho de tempo para fazer tudo aquilo que nos propusemos e ainda mais.
Partimos com a mesma sensação de quando saímos de Portugal, com saudade da nossa família e da nossa casa porque durante este mês de Agosto sentimo-nos em casa e vivemos em comunhão como só uma familia pode viver, e partimos com mais vontade de voltar e de enviar mais, e mais pessoas para continuar e não deixar esquecer....
Maria Manuel Oliveira