sexta-feira, maio 05, 2006

Semana das vocações



Entre o Deus Absoluto e os bens relativos: uma vocação de excelência

Vive-se hoje o paradoxo: martelar que há poucas vocações consagradas e falar mal da vida consagrada. Com que critério se diz que são poucas? Os nossos fundadores começaram sós…
É estranho que se repita que a vida religiosa não se adapta à vida moderna, não é testemunho, os jovens não são atraídos, as formas estão antiquadas, que… que…Apregoa-se que os consagrados deviam viver mais como toda agente…E até que deviam rezar menos, ligar menos à comunidade… levar vida como toda a gente…(se me entendem). Nisso estaria a felicidade, dão a entender.
E mais: que a vida religiosa está ultrapassada, os votos não fazem sentido, impedem a realização pessoal, a iniciativa, a liberdade, o uso de coisas boas, a afectividade, as relações com toda a gente, entenda-se homens e mulheres, a vida sexual, a vida feliz… E até a vida evangélica, a identificação com Cristo…e a fidelidade perpétua está ultrapassada.
Para uma época pós-moderna de consumismo e individualismo até mais não, já estamos a ver onde é que vai parar esse “ideal” dos críticos e denegridores. Às vezes este falar mal vem das fileiras da própria vida consagrada. Como querer candidatos se alguns de dentro falam tão mal do que são, do “produto”que compraram e consomem? Bem sei que isto também acontece na vocação matrimonial e noutros grupos, mas isso não consola nada.
A vida religiosa ou é contra-cultura ao consumismo e ao individualismo ou, se alinha por tudo quanto se vive à volta, não é luz e sal de nada. E para que serviria?
A vida consagrada, para o ser, tem que ser profecia, alternativa de vida, contraste, crítica aos excessos. Mais: tem que relativizar quase tudo o que é bom, e não apenas evitar o que é mau. Tem que ser diferente dos consumismos e do individualismos reinantes. Para os religiosos só um valor é absoluto, que também deve ser para os cristãos…O próprio Deus e Senhor; só Deus basta (Santa Teresa). De resto o testemunho do consagrado consiste em colocar Deus adiante e acima de tudo e de confiar (confiar mesmo), só em Jesus Cristo que nunca deixa ficar mal ( S. João de Deus). O consagrado relativiza tudo o mais, por melhor que seja cada iguaria que o Criador pôs na mesa para os seus filhos.
E assim a consagração a Deus usa dos bens mas relativiza o seu valor e uso precisamente porque absolutiza a Deus. Não os faz ídolos, nem felicidade. Usa dos bens honestos e consome os meios disponíveis que precisa, mas limita o seu uso no quadro do seu voto de pobreza e vida de comunidade pois só em Deus põe a sua felicidade. Mantêm relações afectivas com toda a gente à sua volta e, como consagrado celibatário, por voto de castidade a Deus, abstêm-se da componente de práticas sexuais. Usa da liberdade fundamental do ser humano, de que não abdica, mas como consagrado põe a vontade de Deus acima de tudo e renuncia a uma parte do exercício dessa liberdade pelo voto de obediência, no quadro das constituições do seu instituto, exprimindo com essa decisão que por fundamental que seja o valor liberdade, só Deus e a sua vontade é o seu bem absoluto e felicidade pessoal. Sabe, com S. Agostinho, que é melhor necessitar pouco que ter muito.
O religioso é mensagem de contra-cultura de que a felicidade não é função absoluta de posse e consumo sem limitações, de bens, de prática sexual, de uso da própria liberdade. Não põe a sua felicidade nestas coisas, por honestas e legítimas que possam ser, não apenas por serem ilegítimas, desonestas e pecaminosas. Muitas delas são “boas e até muito boas”. Só que a adesão e a troca de algumas delas por Deus e por uma missão, é melhor. Se a humanidade vai mal é pelos excessos no consumo de coisas boas e não apenas de coisas prejudiciais e condenáveis. A vida religiosa, consagrada, é muito boa.
A dizer mal deste produto como é possível ter alguém que o compre. Parem de dizer mal! A vida religiosa precisa de um marketing excelente digno de um produto de excelência!

Semana das Vocações de 2006
Aires Gameiro, OH