
Memórias do Concílio Vaticano II
Quarenta anos após a reunião que «mudou a face da Igreja», D. Eurico Nogueira lamenta não se ter permitido padres casados e o sacerdócio feminino
Havia sol em Roma quando, na Basílica de S. Pedro, cerca de três mil bispos participavam, a 8 de Dezembro de 1965, no encerramento do Concílio Ecuménico Vaticano II.
Quem disso tem memória é D. Eurico Dias Nogueira, 82 anos, arcebispo resignatário de Braga, Vila Cabral e Lubango. É uma das últimas testemunhas vivas dos prelados portugueses que, neste Concílio, mal foram vistos, com excepção de D. Sebastião Soares Resende, bispo da Beira, e D. António Ferreira Gomes, bispo do Porto, no exílio, ambos perseguidos pelo regime de Salazar.
Polémico quando dispara sobre o aborto, moral e costumes e mais recentemente a propósito da nomeação da comissão de comemorações dos cem anos da implantação da República, ao referir-se a um regime que ajudou à «perseguição» dos seus antepassados, D. Eurico recorda agora as «renhidas votações» dos documentos daquele Concílio que, em sua opinião, «mudaram a face da Igreja». Há 40 anos, a restauração do diaconado permanente (clérigos com poderes semelhantes aos dos padres, exceptuando a celebração da missa e confissão) tinha sido olhada por D. Eurico como provável passagem para a liberalização do celibato eclesiástico.
Assim não foi. O antigo arcebispo lamenta. «Não me repugna a existência de dois cleros.» Revela ainda ter tido vocação para as duas vidas: sacerdote celibatário ou homem casado.Se em 1965 não foi discutido o sacerdócio feminino, para D. Eurico essa é uma questão a que os teólogos terão de dar resposta. Ele gostaria que não houvesse nenhum impedimento. E não esconde, por outro lado, que um dos pecados históricos da Igreja foi a insuficiência de combate pela libertação da mulher e a falta de empenhamento para a eliminação da escravatura.Sem teólogos assessores, «a grande falha», ao contrário dos episcopados da Europa, os bispos portugueses tomaram parte, mesmo assim, nas votações do Concílio Vaticano II.
A colegialidade dos bispos foi, talvez, a sua maior inovação. Na liturgia, a introdução das línguas vernáculas e os altares voltados para o povo foram as alterações mais visíveis no exterior. «Pena foi a perda do latim.»Italianos abatidosO ecumenismo e o diálogo inter-religioso foram outras etapas de relevo. Mas o antigo arcebispo de Braga pensava que a aproximação da Igreja aos anglicanos e ortodoxos seria ainda para o seu tempo. A internacionalização da Cúria foi outro fruto relevante deste acontecimento. Os bispos e cardeais italianos foram abatidos, tendo, por isso, sido já eleitos dois papas estrangeiros. Portugal ainda não chegou lá «por ser cedo de mais», observa D. Eurico. Segundo o antigo arcebispo de Braga, o Concílio Vaticano II deu à Igreja a consciência da sua universalidade e de que o mundo não é terreiro das trevas.
Fonte : Revista Visão