terça-feira, dezembro 27, 2005

Politica & Poltica


"Ao nascer cidadão de um Estado livre e membro de poder soberano, por mais fraca que seja a influência que a minha voz possa ter nas actividades públicas, basta-me o direito de nelas votar para me impor o dever de sobre elas me informar."

Jean-Jacques Rousseau in O Contrato Social
Parto de uma citação de Jean-Jacques Rousseau para desenvolver o meu artigo, uma breve nota biográfica sobre este autor:

Jean-Jacques Rousseau nasceu em Genebra, a 28 de Junho de 1712, e morreu a 2 de Julho de 1778. Filósofo e enciclopedista, Rousseau aflorou na sua condição de livre-pensador variados assuntos entre os quais destaco o tema da dificuldade de ajustar a natureza humana à organização social.

A escolha desta obra como inspiração deriva da forma quase única como atravessou os séculos sem que a sua actualidade e validade fossem beliscados. Não me acusem os profundos conhecedores deste autor e da sua obra de desvirtuar as citações às quais recorro. O meu objectivo não passa por analisar o sentido que Rousseau lhes quis imprimir, mas sim partir das minhas interpretações para desenvolver assuntos que se impõem como pertinentes.

Afinal de contas a magia de todas as artes é não só a da obra em si, como foi pensada por quem de devido direito e arte a idealizou e elaborou, mas também a liberdade de interpretação do vulgo apreciador.

Venho por este meio exprimir a minha opinião e descontentamento sobre a forma como aquilo a que chamamos "política" se dissocia do sentido lato do conceito de política e ainda rejeitar que a responsabilidade seja exclusivamente da classe política. Para não me perder em divagações vou tentar ser o mais conciso possível.

As conquistas de Abril permitiram que se instalasse no nosso Portugal um regime de democracia semi-presidencialista. Na prática, seria de esperar que a classe política representasse os cidadãos da nossa nação nos diferentes órgãos institucionais. No entanto, julgo que de facto o cidadão médio não se sente minimamente representado pela classe política e a classe política tenta representar, de forma pouco forçada, quem não aceita com naturalidade essa mesma representação. Existe portanto uma falta de cumplicidade entre os representantes e os representados e uma certa inversão da ordem natural das coisas.

É já quase um lugar comum culpar a classe política por este distanciamento, talvez aqui a minha opinião seja de certa forma inovadora, já Almeida Garrett "pela boca" de Frei Luís de Souza indagava numa divagação sobre o estado da igreja, se era "o sal que não salgava ou o mar que não se deixava salgar". Aqui se impõe uma questão semelhante, será que as pessoas não se deixam representar ou que os políticos não as conseguem representar?
Obviamente que muita da responsabilidade é da classe política, mas a verdade é que a população enquanto massa amorfa tem também uma grande quota-parte da responsabilidade. São exemplos disso, os níveis de abstenção, o reduzido número de plataformas cívicas (felizmente com tendência de crescimento) e a fraca afluência dos cidadãos nos diversos fóruns políticos (Assembleias de junta, municipais e da Republica).
Desafio desde já todo o cidadão que cultiva este sentimento em relação à classe política a dar um passo em frente - a informar-se, a comparecer e opinar nas sedes próprias, a votar, no fundo a intervir.

Dando um exemplo prático daquilo que aqui afirmo, é desolador que para a maioria dos jovens a política seja um assunto entediante, é desolador que numa simples sessão de Assembleia de Junta o tempo reservado a intervenções do público seja quase invariavelmente não utilizado ou sirva como espaço para pessoas mandatadas exprimirem conteúdos que não são seus.
É obvio que entendo o carácter paradigmático daquilo que aqui argumento, muitos por certo não se inibiram de afirmar que a responsabilidade cai sobre os ombros daqueles que não conseguem cativar. Em antecipação contra-argumento com um raciocínio muito simples: a inoperância e/ou erros dos políticos podem eventualmente ser responsáveis pela existência deste afastamento mas em ultima análise a cobardia daqueles que se desinteressam perpetua-a.
A todos lanço um desafio, participem, informem-se sejam activos e construtivamente críticos.
A política no seu sentido mais estrito, não pertence ou não devia pertencer a uma elite, mas sim a toda a população. A prática da política não se deve cingir a um qualquer fórum ou sala de reuniões, mas sim ocupar cafés, transportes públicos, conversas de rua, etc.
Cumpram o dever de se informar usem o direito de intervir e votar.

"Aqueles que se julgam demasiado inteligentes para governar, acabam governados pelos mais estúpidos."

- André A.P. Batista