segunda-feira, dezembro 19, 2005

Construtores de Pontes...


De todos os títulos que há no mundo, o que mais me agrada é o de Pontífice, que quer dizer, literalmente, construtor de pontes. Um título do qual, não sei porquê, se apoderaram o Papa e os Bispos, mas que na antiguidade Cristã se referia a todos os Sacerdotes e que, em boa lógica, ficaria muito bem a todas as pessoas que vivem de coração aberto.

É um título que me entusiasma, porque não há tarefa mais formosa do que dedicar-se a estender pontes entre os homens e as coisas. Sobretudo, num tempo em que são tão abundantes os construtores de barreiras. Num mundo de tantas valas, que coisa melhor do que dedicar-se a superá-las?

Mas fazer pontes e, sobretudo, fazer de ponte, é uma tarefa muito dura. Não se faz sem muito sacrifício. Uma ponte é alguém que é fiel às duas margens, mas que não pertence a nenhuma delas. Quando se pede a um Padre que seja ponte entre Deus e os homens, quase se está a obrigar a ser um pouco menos homem, a renunciar provisoriamente à sua condição humana, para intentar esse duro ofício de mediador e de transportador de margem a margem.

Se a ponte não pertence por inteiro a nenhuma das margens, tem de estar firmemente assente em ambas. Não “é” margem, mas apoia-se nelas, é súbdita de ambas, depende de uma e de outra. Ser ponte é renunciar a toda a liberdade pessoal. Só se serve quando se renunciou.

É lógico que sai muito caro servir de ponte. É um ofício pelo qual se paga muito mais do que se recebe. Uma ponte é fundamentalmente alguém que suporta o peso de todos os que passam por ela. A resistência, a solidez, são as suas virtudes.

Numa ponte, conta menos a beleza e a simpatia (embora seja muito bela uma ponte formosa), conta sobretudo a capacidade de serviço, a utilidade.

Uma ponte vive no desagradecimento: ninguém fica a viver em cima da ponte. Usa-se para passar, e pára-se na outra margem. Quem quiser carinhos escolha outra profissão. O mediador acaba a sua tarefa quando mediou. A sua tarefa posterior é o esquecimento.

Uma ponte é até a primeira coisa a ser bombardeada durante uma guerra. Por isso, está o mundo cheio de pontes destruídas.

Apesar disso, meus amigos, que grande ofício é ser ponte entre as pessoas, entre as coisas, entre as ideias, entre gerações! O mundo deixaria de ser habitável no dia em que houvesse nele mais construtores de valas do que de pontes.

Há que estender pontes em primeiro lugar para nós mesmos, para a nossa própria alma, que está tantas vezes incomunicada dentro de nós. Uma ponte de respeito e de aceitação de nós mesmos, uma ponte que impeça esse estar interiormente divididos, que nos converte em neuróticos.

Uma ponte em direcção aos outros. Nunca esquecerei a melhor lição de oratória que me deram quando era estudante. Foi um Professor que me disse: «nunca fales “às” pessoas, fala “com” as pessoas». Então, dei-me conta de que todo o orador que não estende uma ponte de “ida e volta” para o seu público, nunca conseguirá esse milagre de comunicação que tão poucas vezes se realiza.

Também aprendi que não se pode amar sem se converter em ponte, isto é, sem sair um pouco de si mesmo. Gosto da definição que Buscaglia dá de amor: “os que amam são os que esquecem as suas próprias necessidades”. Está certo: não se ama sem “pôr o pé” na outra pessoa, sem “perder um pouco o pé” na própria margem.

Bendito o ofício de ser ponte entre pessoas de diversas ideias, de diversos critérios, de distintas idades e crenças!

Feliz a casa que consegue ter um dos seus membros com essa vocação pontifícia!

E a grande ponte entre a vida e a morte? Thorton Wilder diz, numa das suas comédias, que neste mundo há duas grandes cidades, a da vida e a da morte, e que ambas estão separadas e unidas pela ponte do amor. A maioria das pessoas, embora se julguem vivas, moram na cidade da morte.Têm a muito curta distância a cidade da vida, mas não se decidem a cruzar a ponte que as separa.

Quando se ama, começa-se a viver, sem mais, na cidade da vida...

In, Razões para a Alegria, 1992