sábado, dezembro 10, 2005

Coincidências à volta do álcool


Não é que tive várias surpresas convergentes para um ponto. Foi assim.
Estava a chegar a Londres para uma reunião sobre as estratégias para reduzir os riscos e danos do álcool na União Europeia incluindo Portugal e zás uma série de coincidências convergentes. Ora vejam.
Logo pelos jornais de bordo e do metro a notícia chocante de que George Best, estrela do futebol mundial, estava a morrer na noite de 25/26 Nov 05 e morreu daí a pouco. E a notícia impressionou-me tanto mais quanto me recordou os Jogos da Taça do Mundo em 1966, precisamente quando eu era estudante em Londres e o desempenho da Equipa portuguesa do Eusébio que me empolgou.
E todas as notícias dos jornais, rádio e televisão, continuaram nesses dias com pormenores da morte prematura de Best e da sua causa: o consumo de álcool. Nem transplante do fígado há dois anos o salvou.
E isto ao mesmo tempo que nos mesmos jornais a nova lei inglesa que autoriza agora a abertura de bares e pubs nas 24 horas e que estava nos primeiros dias de ensaio, ocupava largas colunas. E com notícias contraditórias sobre os riscos dessa abertura. Algumas referiam a certeza de ir haver mais violência, mais desordens e mais doentes e feridos nos hospitais. Uma notícia referia a noite desgraçada que os médicos tinham tido na emergência do Hospital Universitário com os casos de excesso de álcool. Desde as 23 horas 98 % das ocorrências tinham sido devidas ao álcool, metade com ofensas aos médicos, 1/3 com suturas, 10% com vómitos, 1/3 com estragos na ambulância que os transportou,
Sobre desordens vinham também os juízes ameaçar noutra notícia que os bares e “pubs” onde se verificassem desordens seriam fechados sem apelo.
Mas não é tudo, um dos jornais vinha com a história que, apesar de Best ser um jogador estrela e ter ganho milhões e feito fortuna, foi assistido nesta última doença num hospital privado, por esmola, pois o álcool levou-o a derreter o fígado e toda a fortuna. E a despesa do hospital não foi nada pouca pois ascendeu a 100 mil libras (150 mil euros).
Para além destas notícias sobre o álcool ainda vinha o aviso em relação às raparigas que agora com o “binge drinking” (seis bebidas numa só ocasião ou beber descontrolado) as violações iam aumentar, pois os violadores sabem que o modo mais fácil de “dominar” as vítimas são as bebidas alcoólicas nos bares e discotecas. E ainda se podem defender e conseguir atenuantes dizendo que houve consentimento da parte delas.
Bem, voltando à reunião que era de organizações não governamentais em que havia cerca de 50 participantes, versou temas correntes e estratégias mais eficientes de prevenção primária em que os profissionais de saúde ainda pouco se comprometem, ao contrário das indústrias que inventam sempre novos truques para levar a beber quanto mais e mais cedo melhor …para os seus lucros.
Apesar de ser reunião de ONGs (não governamentais) associados na EUROCARE, que está com 15 anos de existência e da qual fui fundador por parte da SAAP e ISJD, havia representantes da Comissão Europeia (DG SANCO) e da OMS das quais a EUROCARE é parceiro qualificado para alguns importantes projectos em curso.
Houve ainda uma outra surpresa. Num dos jornais de Londres vinha a notícia de médicos que perante tantas pressões para tratar doentes estavam a pôr-se de acordo para se recusarem a tratar doentes que adoecem por si mesmos, cuja “doença é auto-infligida”. E o artigo referia que num inquérito um em cada cinco médicos(as) admite que já recusou tratamento a doentes desses ou seja que “bebem em excesso, fumam ou são obesos”. Vários justificam a recusa não como castigo mas porque um transplante de fígado a quem continua a beber, uma cirurgia à gangrena de um fumador que não pára, uma artoplastia ao obeso que não reduz o peso são tratamentos custosos e inúteis.
Uma notícia mais animadora para terminar. Em volta da estação Victória e da Catedral Católica de Westminster logo ao lado, notei menos pessoas sem abrigo deitadas nos passeios e nas saídas de calor dos aquecimentos. O Pe. Marco da Residência da Catedral, onde me hospedei naqueles dias, deu-me a razão: a Igreja tinha aberto, ali perto, na praça Sloane, um centro de dia e noite para imigrantes e outros sem abrigo. Centro de uns quarenta lugares em que se acolhe e se trabalha na sua integração.
28.Nov.2005
Aires Gameiro
(em voo de Londres para Lisboa)