terça-feira, fevereiro 01, 2005

Relance 252

As eleições constituem um acto cívico da maior importância.

Pelo voto exprimimos e afirmamos o que queremos para a vida da sociedade de que devemos ser membros responsáveis. De algum modo, podemos dizer que o voto que colocamos na urna tem o peso e a dignidade da pessoa que somos.

É nesta perspectiva que cada cidadão deve encarar as próximas eleições legislativas. São os nossos votos que determinarão a configuração da Assembleia da República. Depende pois do nosso voto que a Assembleia, amanhã, produza leis mais ou menos boas, que respeitem e promovam os valores e princípios humanos fundamentais, ou, pelo contrário, os desrespeitem.

Daí que não baste falar em necessidade de votar; é necessário insistir no voto responsável.

E o que é o voto responsável? É aquele que precede de uma vontade livre e esclarecida. O cidadão votante necessita, antes de mais, de conhecer os programas dos partidos em que vai votar. Por isso, estes assumem a grave obrigação de divulgar os seus programas e de o fazer em termos perceptíveis; e, por sua vez, os eleitores têm o dever de se inteirarem do seu conteúdo. É um dever cívico. Ora, podemos interrogar-nos: onde se encontram tais programas? Quem os divulga? Quem os conhece?

Estamos nas vésperas da campanha eleitoral. Pelo que se observa, esta parece que tem muito pouco ou nada a ver com conteúdos de programa. Colam-se cartazes; enchem-se páginas de jornais, tempos televisivos e radiofónicos, com slogans, com superficialidades, com ataques pessoais, mas programas têm sido quase tabu.

É preciso responsabilizar os partidos e os candidatos pelo que se apresentam a defender. É preciso saber que sociedade pretendem edificar, em que valores assentarão as suas iniciativas. Defendem a vida e, nesse sentido, opõem-se à liberalização do aborto e a eutanásia; ou colocam-se no lado da cultura da morte? São a favor da defesa e promoção efectiva da família ou equiparam o matrimónio a uniões homossexuais? Defendem uma sociedade livre, também no campo da educação ou querem manter um sistema escolar estatizante, ou seja, um monopólio do Estado onde os pais se vêm privados de escolher a escola que pretendem para os seus filhos? Têm projectos para, a par de um desenvolvimento económico, promover a justiça e diminuir as desigualdades sociais, ou, pelo contrário vão manter-se os poderes dos lobies, os interesses corporativos, a obediência cega a ideologias fracassadas e os padrões de um sistema consumista opressivo?

Mas, se é necessário conhecer os programas partidários para que se possa falar do voto livre e consciente, não é menos importante atender aos protagonistas políticos, à sua credibilidade; conhecer a sua actuação passada, a sua conduta. Pois não basta termos um texto escrito, por melhor que seja. São homens concretos, são partidos concretos que executam ou não executam os programas.

Só por este caminho de limpidez, é possível, no fim da legislatura, avaliar o trabalho dos que forem eleitos e daí tirar as consequências.

Este é o caminho da democracia real e verdadeira.

Os católicos, cidadãos de pleno direito, não devem esquecer a sua responsabilidade, intervindo activamente no acto eleitoral, antepondo a sua consciência livre e esclarecida a qualquer imposição partidária.


D. Maurílio de Gouveia
Arcebispo de Évora