Às vésperas da eleição presidencial deste domingo, o país, que depende mais do que nunca da Europa, está às voltas com o marasmo econômico e políticoApesar do chuvisco e do frio, várias centenas de pessoas lotavam a Feira de Trofa, ao norte de Porto. Elas vieram para ouvir o antigo presidente da República, o socialista Mario Soares, que é candidato, neste domingo (22/01), no primeiro turno da eleição presidencial, frente ao seu antigo adversário, o ex-primeiro-ministro de direita, o professor Aníbal Cavaco Silva, a quem as pesquisas atribuem uma dianteira de mais de 20 pontos.
Contudo, a despeito dos tambores ensurdecedores da orquestra e dos slogans que anunciam o retorno, aos 81 anos, daquele que forçou a incorporação "histórica" do seu país à Europa, em 1º de janeiro de 1986, o ambiente estava desanimado.Assim como eram os vendedores desses stands sinistrados e às moscas, de lingerie e de calçados "made in Portugal", vitrines dessas indústrias tradicionais que fazem viver a região numa proporção de 70% do mercado e que enfrentam inúmeras dificuldades para resistir à concorrência chinesa e às terceirizações. "Em Portugal, no campo da política, nós vivemos por muito tempo acreditando no mito de Dom Sebastião, o rei que desapareceu durante uma batalha no século 16 e que deveria retornar para salvar o país", confiava, irônica, Maria João Pedroso, que se reconverteu na olaria depois da falência da sua empresa de calçados. "Isso tudo acabou; ninguém acredita mais no salvador; a crise nos tornou realistas", prossegue a comerciante. "Soares é respeitável, mas ele pertence ao passado. Então, é melhor que ele se contente em dar seu nome a estádios ou a supermercados.
E que Cavaco, que é um economista, e que gerenciou os anos positivos [1985-1995], mostre que ele sabe também gerenciar os anos ruins. Vejam os jornais! Nós estamos à beira do precipício!". Naquela manhã, a imprensa repercutia os resultados de uma pesquisa explicando que Portugal é o país o mais pobre da Europa (comparado com os 14 outros países da UE, antes da sua recente ampliação para 25), com 20% da população vivendo com menos de 350 euros por mês (R$ 983,90). Pelo sexto ano consecutivo, em 2006, Portugal estará abaixo da média européia, com 0,8% de crescimento. Não era preciso de muito mais para que a campanha eleitoral, que coincide com o 20º aniversário da integração do país na Europa, se transforme numa espécie de mal-estar existencial coletivo e que ela seja um pretexto para fazer um balanço.
E qual será este balanço? "Quinze anos de aproximação da Europa e cinco anos de estagnação", anunciava a manchete do diário "Público", lembrando que entre 1985 e 2004 o produto interno bruto (PIB) per capita de Portugal passou de 53% da média européia para 76%. Os anos 80-90 terão sido aqueles do "bom aluno português" que, por meio da dádiva dos fundos europeus, construía auto-estradas e atraía os investidores em função da sua mão-de-obra de baixo custo, enquanto a redução das taxas de juros induzida pela marcha rumo ao euro dopava a economia. Os dirigentes dos países do Leste viajavam até Lisboa para aprender a preparar o futuro.Com o desaquecimento de 2001, tudo começou a desmoronar. A Espanha até então geminada a Portugal levantava vôo, enquanto Portugal se deixava distanciar. Sergio Figueiredo, o diretor do "Jornal de Negócios", conta o que aconteceu: "Vinte anos atrás, nós sabíamos em qual nível estávamos: sentados à mesa da Europa, porém, num canto e numa extremidade, em concorrência com os gregos", explica.
"Em 1998, com a Exposição Universal em Lisboa e com o crescimento, o país parecia ter adquirido asas. Agora, nós estamos pagando o preço pelo nosso ingresso na zona do euro e pela abertura dos mercados: nós estamos imobilizados por um torno, em competição com o Marrocos e o Paquistão". "Seríamos nós vítimas da UE? Não. De nós mesmos", conclui Figueiredo.O diagnóstico é unânime. Os governos sucessivos, principalmente aquele do socialista Antonio Guterres, que se demitiu em 2001, permitiram que as despesas públicas aumentassem no momento em que o "modelo português" estava ficando ultrapassado. Naquele ano, os déficits públicos passaram para 4,2%, e com isso Portugal foi o primeiro a violar o pacto de estabilidade. O centrista José Manuel Barroso tenta corrigir o rumo da política econômica, congelando os salários públicos e recorrendo a receitas extraordinárias, mas ele não se arriscou nem a reformar o monstro da administração (730.000 funcionários), nem a enfrentar a economia paralela (um quinto do PIB) ou o código do trabalho herdado da revolução (a Revolução dos Cravos, de 1974, que pôs fim à ditadura, com o advento da segunda República).
Marie-Claude DecampsEnviada especial a Lisboa, Portugal